Nunca se viu o projeto de uma grande hidrelétrica no Rio Tibagi tão próximo de sair do papel quanto agora. No início dessa semana, o presidente do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Vitor Hugo Burko, assinou a Licença de Instalação da Usina Mauá, liberando de vez a obra de R$ 1 bilhão que será erguida entre Telêmaco Borba e Ortigueira.

Sob a sombra de nada menos que 11 ações judiciais que questionam irregularidades no processo de licenciamento, o Consórcio Energético Cruzeiro do Sul - parceria entre as estatais Copel e Eletrosul - quer iniciar os trabalhos imediatamente. No que depender dos defensores mais aguerridos do Tibagi, contudo, o projeto não sai. Um deles é Tom Grando, presidente da ONG Liga Ambiental, que, em entrevista à FOLHA, acusa o Estado de promover um discurso terrorista, incoerente e mentiroso.

A concessão da licença representa o fim da linha para os defensores do Tibagi?
Não, é o começo de um novo momento. O fim da linha é quando nós tivermos a muralha construída e as populações com seus direitos atropelados. A gente não espera chegar até aí.

Como barrar o empreendimento a essa altura?
Pelo menos 11 ações ainda não foram julgadas, e o TRF deixou claro que a competência para licenciar era do Ibama, não do IAP. Essa licença é nula, capenga e muito vulnerável. Temos convicção de que esse ato pode ser anulado.

A atitude do IAP surpreendeu?
Muito. Eu qualificaria como um atentado ao povo paranaense.

Em ano eleitoral, o que é mais simpático à população: defender a natureza ou o desenvolvimento?
Talvez algumas pessoas venham a capitalizar politicamente esse empreendimento dizendo que trará desenvolvimento para a região. Se a população tiver boa memória, daqui a alguns anos vai lamentar e lembrar o nome desses políticos que advogaram por uma obra que vai trazer degradação humana e ambiental.

A população está bem informada?
As pessoas precisam se informar mais. As empresas do setor elétrico já admitiram que o modelo de sequência de barragens num mesmo rio causa o extermínio da fauna aquática e perda da qualidade de água. Na região de Londrina, 1 milhão de pessoas dependem da água do Tibagi.

O que signfica esta ''sequência'' de barragens?
Mauá é o ''boi'', mas tem uma boiada para vir atrás. O plano para o Rio Tibagi é de uma sequência de sete barragens, que destruiriam três quartos da extensão do rio, transformando-o numa série de reservatórios de água podre. Veja o exemplo da represa Capivara. Se ela fica tão perto de Londrina, por que as pessoas vão pescar pintado e dourado lá em São Jerônimo da Serra? Porque não existem mais esses peixes lá. É uma água sem vida.

A Copel alega que, se a energia de Mauá não for disponibilizada a partir de 2011, irá fazer falta ao País. É uma ameaça a ser considerada?
Perceba como é paradoxal o discurso do governo. Quando a oposição fala que o Estado é irresponsável e vai gerar o apagão, os governantes dizem que esse risco não existe. Quando se trata do interesse de construir usinas, o discurso do apagão é retomado. Gostaríamos que pelo menos houvesse coerência. A verdade é que está se estudando a possibilidade de exportar energia até para a Argentina. Como falar em apagão? É o discurso do terrorismo.

Você acredita que o dinheiro tem movido as decisões favoráveis ao consórcio?
Quando se tem R$ 1 bilhão disponíveis logo de início para qualquer obra, é recurso que encanta qualquer empreendedor, independente dos resultados positivos ou negativos. Esse dinheiro na mão de uma empreiteira não surte os efeitos que poderiam render projetos menores e mais bem pensados, voltados a atender a população de Ortigueira, por exemplo, que tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado.

Num lugar tão pobre, como vencer o argumento da geração de emprego?
Estudos do próprio empreendedor apontam que o resultado final dessa barragem será de apenas nove empregos, número necessário para tocar a usina depois de pronta. Um restaurante do Centro de Ortigueira tem mais emprego que essa barragem, que inunda milhares de hectares, desloca milhares de seres humanos e atenta contra a comunidade indígena.

Há alguns anos, os Kaingang chegaram a incendiar uma torre da Copel em protesto contra o projeto de uma usina no Tibagi. E agora, os protestos esfriaram?
Naquele momento a questão do apagão ainda não tinha aterrorizado as pessoas. Mas tenho uma lúgubre previsão do que ainda pode acontecer. Copel e IAP estão subestimando o discernimento e o nível de revolta das pessoas. Já tivemos várias sinalizações de que os ribeirinhos e os indígenas não estão dispostos a engolir esse tipo de agressão a seus direitos. Aquilo pode virar um barril de pólvora.

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