Urgência urgentíssima
André Stumpf
Reforma política é daqueles temas políticos que não despertam nenhuma atenção no leitor. É assunto aborrecido. Não provoca emoção. E a maioria das pessoas não distingue voto distrital de voto proporcional. Não sabe o que é cláusula de barreira, nem entende a proibição de coligação. É pena. Neste ano, apenas neste ano, cinco senadores e 82 deputados mudaram de partido. Isto é, abandonaram a legenda pela qual foram eleitos. Uma bagunça.
Esse cenário desastroso torna evidente que, na verdade, não existe um sistema partidário no Brasil. O vácuo proporciona a ocorrência de fatos estranhos. Imprevistos. Um exemplo vem do tradicionalíssimo Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, que há algum tempo mudou de nome e virou PPS. Seu potencial candidato à presidência da República, Ciro Gomes, está subindo nas pesquisas de opinião. E o partido, que sempre foi pequeno, está recebendo adesões de todos os lados. Até Blairo Maggi, o maior produtor de soja do mundo, aderiu aos comunistas.
Com o PSDB acontece o contrário. É preciso lembrar que o partido do presidente da República nasceu de uma dissidência ocorrida dentro do PMDB ao tempo da Assembléia Constituinte. De lá saíram Pimenta da Veiga, Fernando Henrique, Mário Covas, José Richa, entre outros, para fundar uma nova legenda, que deu certo. Mas inchou e perdeu sua identidade. Agora, vive o processo inverso. Seus correligionários correm na direção do PPS de Ciro Gomes, a nova unanimidade. O partido emagrece a olhos vistos.
Está em vigor o absoluto descompromisso com ideologias e a vontade do eleitor. Mas o cenário é pior. O ex-deputado Hildebrando Pascoal, recentemente cassado pelos colegas da Câmara, tem vasta folha corrida policial. É acusado de tráfico de drogas, de libertar presos e de matar pessoas depois de cometer torturas hediondas. Esse cidadão, no entanto, foi admitido no PFL. Fez carreira no Acre e chegou a Brasília. Se não tivesse sido denunciado, poderia, em pouco tempo, assumir, por exemplo, o Ministério da Justiça. Lá, confortavelmente instalado na cadeira do ministro de Estado, iria comandar a Polícia Federal.
São muitos os riscos da vida política brasileira. Além do descompromisso entre o eleitor e o eleito, a desorganização partidária está transformando a Câmara dos Deputados numa delegacia de Polícia. Não existem exigências para que uma pessoa assine a ficha de filiação partidária. O papel aceita qualquer coisa. Além disso, o cidadão muda de partido com a facilidade com que troca de roupa. Utiliza o mandato para se proteger de eventuais acusações na Justiça. Garante sua impunidade.
A democracia brasileira não ganha nada com a bagunça partidária. Ao contrário, o sistema, ou a falta de sistema, macula a representação e coloca o país na posição de correr o risco de entregar a meliantes comuns os destinos de toda a sociedade. A reforma política é urgente e inadiável.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília

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