Urabá, o alerta do terror
Urabá, o alerta do terror
Urabá é hoje o lugar mais violento da América Latina. Gerardo Iglesias.
José Antonio Pedriali
...Desde janeiro de 1995, quando as autodefesas irromperam na região bananeira, a zona urbana de Turbo e seus distritos de Três e Curralao foram cenário do assassinato de mais de cem pessoas, suspeitas ou realmente vinculadas às organizações guerrilheiras ou a movimentos e partidos políticos de esquerda. Entre os meses de abril e maio, e numa só paróquia deste município, foram realizados cerca de setenta funerais de vítimas das autodefesas. Nos demais municípios, os homicídios contam-se às centenas...
O parágrafo acima é apenas um entre tantos trechos macabros do relatório final da Comissão de Verificação, encarregada recentemente pelo governo da Colômbia de investigar a onda de massacres que tomou conta inicialmente do Estado de Córdoba para se intensificar em Urabá, e neste último adquirir a dimensão de uma endemia. Os dois estados, no norte do país, têm na agropecuária sua principal fonte de recursos, com vastíssimas plantações de banana e grandes fazendas de gado.
A violência nessa região, uma entre tantas regiões em conflito na Colômbia, levou o governo a encarregar um grupo de notáveis de investigar suas causas, seus agentes e possíveis desdobramentos - e propor soluções. O governo, de posse do relatório da Comissão de Verificação, interveio, apertou o cerco aos grupos pára-militares e guerrilheiros, promoveu um expurgo no Exército e na Polícia Nacional, apontados pelos notáveis como coniventes com os massacres. E, apesar de tudo, Urabá é hoje o lugar mais violento da América Latina, classifica o coordenador geral do Programa de Direitos Humanos e Liberades Sindicais, o uruguaio Gerardo Iglesias.
Urabá, Córdoba e outros estados do Norte da Colômbia foram durante anos a região de maior atuação das várias organizações guerrilheiras daquele país. Hoje a guerrilha se disseminou por todo o país, e ironicamente depois que várias organizações, entre elas o Movimento 19 de Abril, o mais lendário e marqueteiro deles, assinaram em 1991 um acordo de paz com o então presidente Virgílio Barco, depondo as armas e se incorporando à vida civil e política.
E foi por causa da ação dessas organizações que médios e grandes proprietários rurais de Córdoba e Urabá, vítimas constantes de saques e extorsões - e também de invasões de suas propriedades por organizações camponesas, ligadas ou não à guerrilha - resolveram se unir e opor a força à força. Para isso, contrataram um dos mais poderosos e ameaçadores mercenários da Colômbia, Fidel Valencia, cujo apelido é suficiente para caracterizar seu caráter e seus métodos - Rambo. E o mercenário organizou as milícias rurais, batizadas mais tarde de grupos de autodefesas, dotadas cada uma de 30 a 60 homens fortemente armados.
...Seu modo de agir não é clandestino, afirma o relatório da Comissão de Verificação, que, além de apontar as ligações desses grupos com o Exército e a Polícia Nacional - que os orientam (ou orientavam, por ocasião da elaboração do relatório) em suas ações e lhes fornecem a logística, em muitos casos -, denuncia a existência de indícios do relacionamento de membros do Partido Liberal, hoje no poder, com as autodefesas.
...Sua atuação violenta - continua o relatório ao se referir aos métodos dos grupos de autodefesa - tem várias fases: primeiro o homicídio seletivo e a intimidação individual; depois, a ameaça coletiva e o desterro; e, finalmente, o massacre e o homicídio coletivo. São raros os registros de confroto das milícias rurais com grupos guerrilheiros, observa o relatório, enfatizando que o seu principal alvo são os líderes dos sindicatos e grupos de camponeses, ligados ou não a esses sindicatos.
Urabá nos veio à memória nesses dias sombrios por que estamos passando no Paraná, onde o conflito pela posse da terra - até há pouco restrito aos longínquos estados do Norte ou ao sempre tumultuado Pontal do Paranapanema - incorporou-se ao nosso cotidiano. As invasões se tornam mais frequentes e em dimensões cada vez maiores, líderes dos sem-terra ameaçam realizar acampamentos-gigantes, seguranças das fazendas - e cada vez mais as fazendas têm mais e mais seguranças - disparam contra os invasores e até o presidente da Sociedade Rural do Paraná, sr. Neco Garcia Cid, organiza a formação de milícias rurais, que ele prefere chamar de polícia rural.
A tensão domina os dois lados. Proprietários de terras produtivas, de média ou grande extensão, não suportam mais a chantagem, emocional ou de fato, a que são submetidos todos os dias pelas lideranças dos sem-terra; os sem-terra, embalados pelos acenos do governo e pelo prestígio que alcançam na mídia e no impulso que recebem de partidos e outros grupos de pressão, mostram-se a cada dia mais ousados. Enquanto isso, o governo promete, promete e promete - e suas realizações nesse campo estão sempre abaixo das expectativas - e o poder público, representado pelos governos estaduais e pelas forças de segurança, revelam uma timidez exasperante em relação aos conflitos e ao ambiente de tensão.
Em tempo: a outra face da violência promovida pelos grupos de autodefesa foi sentida pelos próprios produtores rurais de Urabá: muitos deles, que patrocinaram essas milícias para garantir sua segurança, tornaram-se vítimas de seu poder incontrolável: ou através da extorsão e da chantagem, ou através do sequestro. Muitos proprietários rurais foram mortos. Um pistoleiro já se sente semi-deus somente por portar uma arma; um grupo de pistoleiros - sobretudo quando vários grupos, de 30 a 60 homens cada um, resolve se unir - extrapola o poder de sua força e sente o mundo a seus pés.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é editor responsável por Política e Opinião da Folha de Londrina





