Acostumado a atender, diariamente, mulheres com muitas queixas ou em busca de soluções, o ginecologista e obstetra paulista Malcolm Montgomery entende de uma eterna batalha: afinal, qual mulher nunca teve seu humor testado pelas alterações hormonais?

Em Londrina nessa semana para palestra, Malcolm acaba de lançar o livro ''A Mulher e Seus Hormônios... Enfim a Paz''. Em entrevista à FOLHA, o ginecologista, que inspirou com uma de suas obras o seriado ''Mulheres'', na Rede Globo, fala dessa tão delicada relação.

O senhor afirma que a maneira como as mulheres administram os hormônios pode traçar a linha entre a saúde e a doença. Como administrá-los?
A partir do ponto em que a mulher passou a privilegiar a sexualidade em relação à reprodução, o número de ciclos menstruais passa a ser muito maior que o da mulher biologicamente correta, que engravida mais frequentemente. Nossas bisavós, que engravidavam dez vezes e amamentavam muito, deram vez à mãe de hoje, que não engravida por opção ou tem um a dois filhos, em média. Com isso, a mulher contemporânea vai ter um número de ciclos dez vezes maior que as mulheres do passado, cerca de 400 a 500 ciclos durante seus 30 anos de vida reprodutiva. Isso gerou algumas complicações como a endometriose, a tensão pré-menstrual, os miomas uterinos, as cólicas menstruais, as anemias, alterações da imunidade. Tudo isso requer uma adaptação e a ginecologia moderna pode contribuir, por meio dos hormônios, para a diminuição ou suspensão da ovulação. Nesse sentido, teremos benefícios a longo, médio e curto prazo.

Em relação à utilização dos implantes anticoncepcionais, quais suas indicações?
Os implantes funcionam como uma pílula muito mais moderna. Por ser implantes, não há passagem do hormônio nem pelo estômago nem pelo fígado da mulher, indo direto para a circulação. Outro ponto é que, atualmente, há implantes individualizados quanto à dose e à combinação. Ao individualizar a dose, levamos em consideração o índice de massa corporal, o fato de ser fumante ou não-fumante, sedentária ou não, idade, e obesidade ou anorexia. As combinações, por sua vez, dependem do que a mulher precisa combater, ou seja, além da anticoncepção, a enxaqueca, dor na mama, cólica, celulite, entre outras situações. Uma pena é que esses implantes não estão no mercado, os que estão não valorizam as individualidades da mulher. O problema dos individualizados são os valores, acessíveis a uma minoria.

Pôr fim à menstruação é uma decisão acertada?
Suspender a menstruação é uma coisa muito mítica, mas que na verdade se faz há muitos anos. No caso clássico, em que se utilizam as pílulas anticoncepcionais tradicionais, por três semanas, e se suspende uma, a mulher tem um sangramento quando interrompe o uso da pílula. Esse sangramento não é menstruação, isso é falso, é uma falsa sensação. No caso de tomar a pílula sem parar - como a indicação norte-americana -, isto é, tomar por três meses e parar, ou usar o anel vaginal e os implantes, pode-se diminuir ou tirar o fluxo de sangramentos, o que é bastante benéfico. Ao estabilizar o ciclo do implante, tiram-se os altos e baixos da mulher, além de estabilizar a parte imunológica.

O senhor afirma que a mulher é um ser relacional...
A mulher atual já ganhou um espaço muito legal em relação à parte profissional e, graças a essa evolução financeira, não se submete a qualquer orangotango na relação que tem. Ao mesmo tempo, a mulher dos dias atuais se envolve por completo com família, filhos, trabalho e demais atividades e é impossível ser ''bambambã'' em tudo. Quando a mulher consegue equilibrar trabalho, família e lazer, a estabilidade é sua aliada.

A mulher é primeiramente mulher ou naturalmente fêmea?
Ninguém nasce mulher. A mulher nasce fêmea, com suas características naturais e, com a vivência, faz suas escolhas, tornando-se mulher. Infelizmente, a mulher dos dias atuais ainda se submete a alguns opressores. Em algumas situações, prevalece seu lado biológico, isto é, fêmea, e, em outros casos, para muitas mulheres, seu sonho não é se tornar mãe ou reproduzir biologicamente: há mulheres mais felizes com o sucesso profissional do que parindo filhos o tempo todo.

E quando a mulher chega à menopausa? Qual porção se sobressai?
Observo que, a mulher que chega à menopausa e só se dedicou aos filhos e não buscou uma atividade profissional, sofre muito mais do que aquela que ampliou seus horizontes de atuação. A auto-estima cai muito.

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