Em 2008, completam-se 20 anos de gratuidade do ensino nas universidades estaduais do Paraná. A conquista foi fruto de muitas greves e manifestações, e passou pela aprovação da Lei 8.675, regulamentada pelo Decreto 2.276, de 1988. O professor de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Reginaldo Dias, era estudante na época e participou da invasão da reitoria, que se transformou em marco da conquista da gratuidade e das eleições diretas para reitor.

Em comemoração ao feito, a editora da universidade está relançando o livro ''A Universidade de Ponta Cabeça'', que aborda o movimento estudantil e a atmosfera da redemocratização no Paraná em meados dos anos 80. Confira a entrevista que o autor concedeu à FOLHA, analisando as transformações que ocorreram nas instituições de ensino do Estado após a implantação da gratuidade.

Qual o significado da invasão da reitoria da UEM?
O ano de 1984 foi um tempo efervescente na política do País e para o movimento estudantil do Paraná. Naquele momento, o Brasil vivia o clima das Diretas Já e a ascensão de novos movimentos sociais. No Paraná, houve mobilizações na Universidade Católica (atual PUC), na universidade de Londrina, greve na Faculdade de Paranaguá e um boicote às mensalidades que atingiu 90% dos estudantes. Esse movimento lastreou, inclusive, a luta pela estadualização da Unioeste. Em Maringá, durante impassse nas negociações pelo congelamento dos preços do Restaurante Universitário (RU) e gratuidade do ensino superior, os estudantes tomaram a reitoria e permaneceram lá por uma semana. A conquista imediata do movimento foi o congelamento dos preços, mas num processo de lutas, significou a abertura de novos caminhos que culminaram na gratuidade em 1987.

O que mudou após a gratuidade?
O Paraná tem a característica de manter uma ampla rede de universidades estaduais, enquanto nos outros estados predominam as federais. A expansão dessa rede aconteceu na segunda década dos anos 60 por meio de estruturas públicas que praticavam o ensino pago. Apesar de permitir sua ampliação, o pagamento era um elemento de exclusão. A gratuidade ajudou a democratizar a universidade e fazer com que a busca da excelência fosse compartilhada com a população. Se há uma vida interna democratizada, é possível colocar uma série de demandas da sociedade para a universidade cumprir; não é ciência pela ciência. A universidade tem uma função social e a democratização no acesso é decisiva para isso.

A gratuidade chegou a reduzir o financiamento das universidades?
É importante destacar que a democratização foi obtida em duas frentes: a primeira foi a abertura da própria gestão, com a eleição direta para reitor e chefes de departamento. E a outra face era a luta pela democratização do acesso. Na década de 80, houve uma conjugação das duas lutas. O primeiro reitor eleito (da UEM), em 1986,®MDBO¯®MDNM¯ negociou o congelamento das anuidades - já que ele foi eleito com uma plataforma que contemplava esse tipo de reivindicação. Até ali, as anuidades representavam algo em torno de 9% a 10% das receitas. Com o congelamento, houve uma forte redução e quando veio a negociação por conta da greve, faltava muito pouco.

Antes da mudança, todos pagavam?
Havia uma série de bolsas - trabalho e alimentação - instituídas pela ditadura, mas o que predominava era o pagamento. Quando não havia pagamento direto era por conta de algum tipo de programa em que o aluno tinha que ressarcir o poder público depois de formado.

Qual a análise que o senhor faz das universidades estaduais hoje?
A gente sempre diz que as universidades estão em crise, mas isso não impede que elas avancem. A UEM, onde estudei e trabalho, é tida como uma universidade de excelência. Quando fazia graduação, contava-se nos dedos das mãos de uma pessoa só o número de doutores da universidade; hoje há centenas de doutores, cursos de mestrado e doutorado e uma série de investimentos em iniciação científica.

O governo Álvaro Dias, que aprovou a gratuidade, também ficou marcado pelo embate com professores - inclusive com o célebre episódio da cavalaria...
Esse episódio da APP, do dia 30 de agosto de 1988 (quando um protesto foi reprimido com violência pela cavalaria da Polícia Militar), já está incorporado à memória das lutas sindicais (todos os anos, no mesmo dia, é realizada a manifestação ''Dia de Luto e de Luta''), mas um governo deve ser visto no seu conjunto - e no caso da gratuidade o ex-governador pode dizer que ele chancelou essa conquista.

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