Universidade pública, sociedade e salários
Alexandre Florindo Alves
Existem vários aspectos relacionados à importância da universidade pública. Em razão da atual situação do ensino público, discuto aqui um pouco da questão relativa aos salários dos servidores, retomando alguns pontos nem sempre lembrados nas discussões: qual a relação entre os salários dos servidores e a qualidade do ensino público? Em que aspecto esses salários importam para a sociedade? Por que é possível afirmar que isso não é um problema exclusivo dos servidores?
Enfrentamos o que se pode chamar de ‘‘evasão de cérebros’’, fenômeno que apresenta consequências extremamente importantes na educação. Os profissionais mais qualificados se vêem atraídos a deixar as universidades públicas e ingressarem naquelas de ensino pago (onde o salário muitas vezes costuma ser o dobro) ou em outro tipo qualquer de empresa.
Uma primeira consequência é a queda na qualidade do ensino público. A sociedade que pagou para formar tais profissionais terá, se quiser desfrutar de sua qualidade, que continuar pagando por isso. No entanto, se formos pensar no País como um todo, alguém poderia até argumentar que isso não é problema tão grave, pois o nível de educação no geral iria se manter o mesmo, por exemplo, o número de doutores no ensino superior seria o mesmo, a despeito deste doutor lecionar em uma escola pública ou privada.
É necessário fazer considerações a respeito de produção e reprodução (ou transmissão) de conhecimento. Não é demais tocar no exemplo japonês. É de amplo conhecimento que uma das características mais marcantes do desenvolvimento econômico daquele país foi e é a educação, o conhecido investimento em capital humano. Não adianta ter os melhores equipamentos se não há pessoas capacitadas para utilizá-los. Mais que isso, é preciso, cada vez mais, ter os melhores equipamentos que, por sua vez, somente são desenvolvidos por profissionais qualificados.
Isso se aplica às mais diversas atividades de uma sociedade. Aí está o cerne da questão: se for apenas reproduzido o conhecimento existente sobre algum assunto, certamente esses conhecimentos se tornarão desatualizados. Qual a solução? Produzir conhecimento, o que se faz somente através de pesquisa.
Pode-se, então, tratar do segundo aspecto desta evasão. A evasão de cérebros implica problemas muito mais graves de longo prazo do que de curto prazo. O profissional de uma universidade pública, se migrar para uma empresa, deixará de transmitir seus conhecimentos para centenas de futuros profissionais que irão atuar nas mais diferentes esferas da sociedade e prestará serviços a uma única empresa. Se for parar em uma instituição privada de ensino deixará boa parte de suas atividades de pesquisa. Passará de produtor e reprodutor de conhecimento para, em grande parte, reprodutor de conhecimento. Isso porque atualmente, na maioria das instituições de ensino pago, o profissional dedica-se quase que exclusivamente às atividades de ensino. Nelas chega a ter carga horária de aula duas a treze vezes maior que na universidade pública. Obviamente não sobra tempo para pesquisa.
Vale lembrar que a discussão aqui não é universidade pública versus universidade de ensino pago. É preciso que se entenda que defender o ensino público não significa denegrir ou combater o ensino pago. De fato, sob a ótica de que educação é condição necessária para o desenvolvimento de um país e mantido certo nível de qualidade (para o que o Provão tem contribuído), quanto mais instituições de ensino no País, melhor.
Não é possível depender totalmente de pesquisas realizadas pelo mundo afora (embora muitas vezes sejam de fundamental importância). O País e suas diferentes regiões têm particularidades que exigem, para seu entendimento, pesquisa local. Exemplos não faltam: não dá para falar em copiar modelos de gestão ambiental, não dá para falar que métodos educacionais, de segurança, entre outros, possam ser bem-sucedidos sem o conhecimento das características de nossa sociedade.
No Brasil, a pesquisa é realizada primordialmente nas instituições públicas e, dentre essas, principalmente nas universidades. É a sociedade investindo na produção de conhecimento que garanta manutenção e melhoria na qualidade de vida. É comum ouvir falar que o descaso com a educação tem relação com aspectos ‘‘eleitoreiros’’, ou seja, um povo sem educação tem menor senso crítico e continua votando sem filtrar adequadamente seus candidatos e, talvez pior que isso, não se posiciona cobrando atitudes de seus representantes eleitos. A questão não é somente esta, e daí a urgência. Um país que não investe em pesquisa, em ciência e tecnologia, está fadado a uma fraca inserção na economia internacional.
Se a sociedade brasileira quer vislumbrar um futuro soberano, tem que colocar seus filhos na escola. No entanto, é necessário que esta escola tenha conteúdo de qualidade a ser oferecido e tal conteúdo somente existirá ao longo do tempo se existir pesquisa. Só continuará existindo pesquisa se os profissionais que a ela se dedicam tiverem condições para executá-la.
Os salários são parte destas condições. Além disso é necessário ter estrutura, ter equipamentos, ter ambiente de trabalho livre e democrático, ter material de consumo, entre outros, sendo que são condições importantíssimas na contenção da evasão de profissionais. Nossa sociedade precisa despertar para o fato de que a qualidade de vida que se tem hoje é fruto, entre outras coisas, de investimentos realizados no passado. Se a mesma pretende que as condições sejam mantidas e melhoradas, é necessário continuar investindo. É necessário conhecer e definir suas prioridades. É necessário ter universidade pública.
- ALEXANDRE FLORINDO ALVES é professor universitário adjunto em Maringá

mockup