Universidade pública e democracia
Universidade pública e democracia
Jackson Proença Testa
Concordamos com os alunos Carlos Niebuhr, Luciana Lazarini, Maria Rita Teixeira, do curso de Jornalismo da UEL, onde ingressaram em 1999. A universidade, cujo nome por si engloba a discussão, a pluralidade de idéias e a livre manifestação, deve ser o berço das atividades democráticas. É assim que a entendemos, e procuramos conduzi-la, apesar de todos os percalços que enfrentamos, alunos que dela já fomos, e como membro de seu quadro de docentes, do que muito nos orgulhamos. Como jovens acadêmicos, os autores da carta publicada no dia 20 de julho, na Folha, não conseguiram separar a versão do fato que realmente ocorreu.
Entre as justas reivindicações de um Comando Unificado de Mobilização ou de Greve, numa das assembléias realizadas (conforme publicado na imprensa) lançou-se a idéia de boicote ao Concurso Vestibular de Inverno 2000, o maior da história da Instituição, com 28.090 inscritos. A UEL firmou compromisso com esses candidatos, e a eventual frustração do certame causaria prejuízos incalculáveis: milhares deixaram de fazer inscrições em outras universidades, privilegiando a nossa que, inclusive pela excelência de seus alunos, situa-se entre as melhores do País.
Vejamos a situação inversa: se o Carlos, a Luciana e a Maria Rita estivessem entre os vestibulandos deste semestre, e o concurso não se realizasse: qual seria a sua reação, a sua atitude? Certamente a UEL seria acionada por perdas e danos!
Com o peso dessa responsabilidade, a UEL buscou amparo na Justiça, para garantir, através de medida cautelar, a realização do concurso. Com a concessão de medida liminar, o assunto passou à esfera judicial, e todos os atos decorrentes fugiram do alcance da instituição.
Mesmo assim, a lamentável ocorrência do último domingo não se caracterizou por prisão, mas apenas um docente e um estudante prestaram esclarecimentos e foram dispensados em seguida, conforme certidão da 8ª Vara Civil.
Entre o material distribuído estava o Manifesto em Defesa do Ensino Público, Gratuito e de Qualidade, que, aliás, foi reproduzido no Jornal do Vestibular, publicado pela UEL, no último dia 19, quarta-feira, e entregue a todos os vestibulandos.
Os alunos fazem referência aos mais duros anos da ditadura militar, que não viveram. Nós vivemos aquela época como alunos, e sabemos como era difícil e arriscado se tentar uma pequena manifestação democrática. Comparar um incidente lamentável àqueles anos de chumbo é desconhecer a história e uma incoerência. Bastaria ver a frase que os alunos estamparam nas últimas assembléias realizadas: Professor, quem é você? Mostre a sua cara, pois até agora só vimos...! Não se tem notícia de que houve censura ao painel, nem mesmo por parte do sindicato ou da associação que representa os docentes da UEL.
Quanto ao sucateamento do ensino público, convidamos a todos a fazer uma visita detalhada a todo o câmpus, fazendo comparações com a situação de alguns anos atrás: é visível o incremento nas construções, nos equipamentos, nas instalações. Claro que muita coisa ainda está por fazer ou refazer, incluindo laboratórios importantes. Mas, neste exato momento, temos pelo menos três grandes obras sendo edificadas: o prédio de Artes Cênicas, o de Estilismo em Moda (ambos no Centro de Educação, Comunicação e Artes, onde estudam os três alunos citados), o prédio do Instituto de Referência em Ciências Humanas do CCH (construção de responsabilidade do governo do Estado que agora está sendo retomada), e o prédio do Projeto GeNorp, que, numa atitude inédita, nos foi doado pelo empresário Atsushi Yoshii. A rede de fibra ótica avança, interligando todos os centros da UEL; mais de R$ 500 mil foram investidos em equipamentos para os cursos da Universidade somente no último semestre.
Especificamente, veja-se o caso do curso de Jornalismo: há alguns anos, os alunos protestaram, colocando nos corredores seus instrumentos de laboratório: máquinas de escrever manuais, algumas com mais de vinte anos de uso! Pois, agora, dispõem de computadores, ligados em rede, e brevemente esse número será ampliado.
Quanto à alegação de que se sentem fora do processo democrático que, teoricamente, deveria existir em uma universidade, discordamos do teoricamente. O processo democrático deve existir na prática, como, de fato existe. Os missivistas já perguntaram quem são seus representantes nos conselhos da UEL, a começar pelos departamentos, colegiados de Cursos, Conselho Departamental, Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão, Conselho de Administração e Conselho Universitário? Como tem sido a frequência desses estudantes nas reuniões? Rápido levantamento constatou que muitos deles mais faltaram do que compareceram às reuniões, devidamente convocados.
Finalmente, a UEL nunca se autodenominou perfeita. E lembra que nunca disse que é 4ª do País, mas citou levantamentos feitos por importantes órgãos de pesquisa e de imprensa. O ranking feito pelo jornal Folha de S.Paulo, por exemplo, baseou-se em dados do Ministério da Educação e do Desporto, utilizando-se metodologia da qual, inclusive, discordamos, por não levar em consideração as pontuações C, D e E, e também por colocar no mesmo rol universidades sem a homogeneização do número de cursos avaliados.
Já os trajes são uma questão de opção: uns fazem uso do traje militar, outros do look guerrilheiro, mas o nosso sempre foi o traje civil.
A nossa geração lutou contra a repressão, no movimento estudantil, ao lado de muitos companheiros que hoje são professores da UEL, para garantir a democracia e a liberdade que temos hoje, resultando em fichamento no antigo Dops e SNI. Voltamos a afirmar: a universidade está aberta ao diálogo responsável, às justas reivindicações e ao reconhecimento de seus erros, pois é deles que se constrói uma instituição cada vez melhor.
- JACKSON PROENÇA TESTA é ex-aluno, ex-dirigente de diretório acadêmico, docente do Departamento de Economia e atual reitor da Universidade Estadual de Londrina (UEL)





