Terminado o período de inscrições de candidaturas aos cargos de reitor e de vice-reitor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), é preciso começar a fazer uma profunda reflexão da universidade que queremos construir. Uma reflexão que demanda a participação da comunidade universitária, do Estado e da sociedade, pois quanto melhor for o diagnóstico, melhores serão as medidas adotadas para sanar as dificuldades existentes e projetar um futuro promissor.
A universidade tem uma dupla função social a cumprir, que é a de formar profissionais qualificados e cidadãos ativos para exercer as mais diversas atividades; e a de produzir o saber e o pensamento críticos nas diferentes áreas do conhecimento científico, tecnológico e cultural. A universidade pública vem, de certa forma, cumprindo esse papel. Hoje, são as universidades públicas que oferecem os melhores cursos de graduação e de pós-graduação e a quase totalidade da produção científica, tecnológica, humanística e cultural é realizada no seu interior.
Sabemos que a produção de conhecimento demanda tempo de trabalho intelectual e muito esforço coletivo. E para isso, a sociedade precisa formular as bases intelectuais e sociais para que tal conhecimento possa ser continuamente construído e disponibilizado para esta mesma sociedade.
Nesse sentido, temos muito a avançar. Já não dá mais para compactuar com os desmandos governamentais frente a um setor essencial para o futuro do país. E temos certeza que a grande maioria dos docentes e funcionários não compactua. O Brasil precisa criar mecanismos eficientes de financiamento das universidades públicas, ampliar o número de vagas nessas instituições e investir estrategicamente em ciência e tecnologia. A sociedade precisa entender que, quanto mais pública for a universidade, mais esta se transformará na universidade da sociedade. Quanto mais recursos forem investidos em educação, inclusive a superior, em pesquisa e em desenvolvimento científico, tecnológico, cultural e humanístico, mais se consolida a democracia e a soberania nacional.
Para ser uma universidade da sociedade, a universidade pública e gratuita precisa ser competente. Nesse sentido, precisamos romper com o corrosivo corporativismo acadêmico e sindical, criando mecanismos de avaliação periódica e continuada, reorganizando a estrutura burocrática e diretiva, descentralizando e tornando mais transparentes as ações administrativas; enfim, criando o princípio da responsabilidade política e social e reforçando o compromisso democrático. Este é o nosso dever.
No entanto, não há universidade competente de fato sem a devida autonomia. Autonomia é a garantia concreta da universidade poder atuar com liberdade na produção do conhecimento (com respeito à ética profissional, obviamente), integrando as atividades de ensino, pesquisa e extensão. É evidente que, para o exercício completo da autonomia universitária, como estabelece a constituição cidadã de 1988, é necessário que o Poder Público defina as regras de financiamento em uma base sólida, cujos recursos financeiros sejam suficientes para o pagamento de pessoal e para a manutenção e custeio das atividades de ensino e pesquisa com qualidades, sem evidentemente, deixar de proporcionar o crescimento das universidades e a inclusão de mais estudantes no ensino superior público. Este é dever do Estado e da sociedade, e seria uma prova de respeito a um espaço de construção e de democratização do conhecimento.
- ANGELO PRIORI, doutor em História, é professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

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