Há uma tendência nos meios acadêmicos de valorizar a temática ‘‘pura’’ ou a voltada para o universal. No primeiro caso jamais se submete o assunto numa perspectiva de ‘‘relação de poder’’. Haja epistemologia e metafísica. Uma inclinação para fugir ao ‘‘imediato’’ e ‘‘próximo’’.
Seria surpreendente, por exemplo, que a Universidade Católica de Curitiba não tivesse vários estudos sobre a favela que se urbaniza da Vila Pinto, que é sua vizinha e na qual alguns dos seus agentes do setor de Assistência Social até operam com razoável eficiência e dedicação. Uma das ideologias que tomou conta do curso de Arquitetura e Urbanismo da Federal é a de consagrar os supostos feitos do lernerismo como exemplares. Convidado para motivar alunos de todas as séries que iriam participar de um encontro em Barcelona, a pedido do coordenador da área, que desejava ‘‘massa crítica’’, fui lá e falei por duas horas, o dobro do acertado. Pois bem: no briefing que tratava das palestras que precederam a viagem não havia uma só referência das dezenas de restrições que apresentei e das mitificações que denunciei.
Por mais de uma vez, em aulas daquele curso, sem qualquer propósito de fazer provocação, fiz apreciações críticas e isso até mesmo no interior do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano. Lembro de uma delas diante de um mapa do zoneamento da cidade em que havia uma área do Atuba como mancha verde quando o proprietário já havia esvaziado o tanque (do Glaser) e o transformado num cenário árido. O verde permanecia no mapa e tanto a prefeitura como o IPPUC não haviam exercido a defesa mínima de algo que se incorporara à visão de Curitiba dos que chegam de São Paulo, verdadeiro cartão-postal.
Uma arquiteta briosa, Fernanda Sanchez Garcia (Londrina a conhece), produziu um ensaio reunindo vários artigos sobre os mitos eregidos pelo marketing em torno de Curitiba sob o título ‘‘A Cidade Espetáculo’’. Ela me convidou para fazer a ‘‘orelha’’ da obra, o que também fiz com relação a um trabalho do vereador Jorge Miguel Samek em cima de reflexões urbanísticas.
Méritos inegáveis do grupo lerneriano – a disciplina buscada no Plano Diretor, as vias expressas, o sistema de circulação e transporte, a ampliação das áreas verdes, o charme da cultura ecológica – não justificam que se pretenda fazer dos processos da propaganda, que operaram como lavagem cerebral, em matéria indiscutível, em ortodoxia.
A REAÇÃO Não apenas a professora Fernanda, mas mestres de outras áreas passaram a ocupar-se da temática próxima. Numa tese de doutorado, Dennisson de Oliveira devassou as relações de poder no caso do tão badalado planejamento da Cidade Industrial entre o grupo dominante e as ações multidisciplinares do empresariado, nascente ou tradicional.
Ficou visível nesse estudo – e se uma abordagem sobre a questão fundiária e o empresariado da construção civil fosse aprofundada teríamos revelações mais ricas – que tudo tem um ajuste político em favor de um grupo. O PMDB, que era a oposição, cometeu o erro de centrar suas baterias sobre o caso da concessão, em aberta burla ao código de edificações, do Shopping Mueller. O empresário Salomão Soifer, o beneficiário, depois dessa, ganhou outras: é um dos donos da exploração do Parque Nacional do Iguaçu e também do Terminal de Contêineres do Porto de Paranaguá. E assim se dá com outros problemas como, por exemplo, o do artifício do ‘‘solo criado’’ que transforma unidades de preservação (aliás há pardieiros que não merecem qualquer consideração artística ou histórica e aí figuram) em moeda de troca para burlar regras de ocupação do solo e dos gabaritos, sob o fundamento da sua relevância.
O fato é que a cidade, Curitiba, e o Paraná se transformam em ponto de reflexão acadêmica. Até os jovens em trabalhos de graduação, como o de Marcus Roberto de Oliveira, empreenderam estudos sobre 1964 e as marchadeiras, ali destacando a ação da União Cívica Feminina. Recentemente – e fiz comentários a respeito – o professor Ricardo de Oliveira lançou o livro ‘‘O Silêncio dos Vencedores’’ em que ajunta critérios de análise histórica e sociológica na questão das classes sociais à genealogia, o que vale pela sistematização e serve de roteiro para entender até que ponto a mobilidade social estaria expressa no comando político.
LIDERANÇA Em 9 de agosto o professor Pedro Ricardo Dória faz dissertação de mestrado em Sociologia da UFPR em estudo sobre ‘‘Liderança, autoridade e contexto político: o caso de Jaime Lerner no Paraná (1971-2001)’’. Destaque da tecnoburocracia neysta e apontado como um renovador, Lerner oscila do sistema Arena-PDS para o PDT de Brizola e retorna ao nicho inicial e o estudo se fixa na ascensão e queda de Lerner e também no projeto nacional.
Poucos homens públicos do Paraná dissiparam tanto potencial como Lerner e não sei até que ponto esse tipo de avaliação é feita por Dória que esteve, durante muitos anos na Copel, ao lado de Parigot de Souza, um dos nossos raros líderes, ao lado de Munhoz da Rocha, com expressão de estadista. O curioso, como tenho revelado, é que a obra de construção de Ney Braga, marcada por um forte sentido de intervenção estatal, e detonadora do Paraná moderno integrado fisicamente e em busca da unidade cultural, vai encontrar em Lerner a expressão antípoda no comando do desmanche patrimonial, todavia com o mérito de romper a dependência com São Paulo como economia de complementaridade em face do novo perfil industrial. Ninguém, nem mesmo Ney Braga, teve como Lerner tanto potencial para espaços nacionais. Teve. Não tem mais. Seu governo não resiste a um devassa em profundidade.
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