UNIÃO PELA CURA - Terapia em grupo contra o estresse pós-traumático
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de julho de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Pesquisa realizada pela psicóloga Rosaly Braga Campanini, do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que pacientes que utilizaram a psicoterapia interpessoal de grupo para o tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) apresentaram melhora significativa em sintomas como depressão, ansiedade, qualidade de vida e ajustamento social.
Participaram da pesquisa pacientes que faziam tratamento medicamentoso, sem conseguir os efeitos desejados, e os médicos já tinham feito encaminhamento para a terapia. Nesta entrevista, Rosaly explica como a psicoterapia interpessoal funciona nesse tipo de transtorno.
Existem pessoas mais sujeitas ao estresse pós-traumático?
Dentre as pessoas que sofrem situações de violência, em geral, uma grande parcela se recupera. Pesquisas internacionais mostram que existe uma faixa de 7% a 13% que não se recupera e acaba desenvolvendo o Transtorno do Estresse Pós-Traumático. A Unifesp fez uma pesquisa que ainda será publicada e o que se descobriu é que, na cidade de São Paulo, dentre as pessoas que sofrem um tipo de violência urbana, 17% desenvolvem o problema. É uma taxa altíssima, geralmente presente em locais de guerra, como na Faixa de Gaza.
Sabemos que pessoas que sofreram violência na infância, seja sexual, seja verbal, tem uma tendência maior quando sofre uma violência na idade adulta a desenvolver o TEFT. Sabemos também que pessoas que têm geralmente um bom suporte familiar, uma rede familiar bem estruturada geralmente apresentam menos o distúrbio.
Por que foi escolhida a terapia em grupo neste trabalho?
Esses pacientes têm um prejuízo geralmente no funcionamento social. Um dos grandes sintomas que o paciente tem é a evitação, que vai levando-o a um isolamento social progressivo. E a premissa da terapia em grupo é que, melhorando o relacionamento interpessoal, o paciente pode melhorar. O grupo já tem esse ''plus'', na intervenção com esses pacientes eles saem dessa situação de isolamento.
Como é o trabalho terapêutico?
O grupo é formado por seis ou oito pessoas e desenvolvido semanalmente, durante 16 semanas e com uma 1h30 de duração. Os pacientes já vêm tomando medicação. Quando os médicos do próprio ambulatório encaminham para psicoterapia, nós aplicamos os instrumentos que são usados nessa situação para ver os sintomas do transtorno, usamos escalas de depressão, de qualidade de vida, de funcionamento social.
Quando iniciamos, esses índices estão altíssimos, são geralmente pacientes que estão muito graves. Ao fim de 16 semanas, nós aplicamos novamente os mesmos instrumentos e observamos a redução muito expressiva dos sintomas do TEPT - irritação, isolamento, falta de memória - que passam de grave para leve e sintomas de depressão e ansiedade, quase zeram. No funcionamento social de qualidade de vida os pacientes têm uma melhora de mais de 80%. Depois que termina a terapia, fazemos um estudo que chamamos de seguimento - três meses depois eles são chamados e avaliados, e com seis meses são avaliados novamente. Depois de alguns meses os sintomas praticamente são zerados.
Este então é o melhor tipo de terapia nestes casos?
É importante você ter uma diversidade no tipo de intervenção para o paciente. Primeiro porque eles são específicos, podem não responder a uma terapia comportamental-cognitiva, porque é uma terapia de exposição. Estudos apontam que ela é muito eficaz, mas como gera muita ansiedade devido à exposição progressiva à situação que o paciente viveu, acaba tendo também uma alta taxa de abandono no tratamento. Aí é importante você ter outras intervenções científicas que possam ser eficazes.
O grupo então surge como essa alternativa...
A psicoterapia interpessoal tem o foco em trabalhar os relacionamentos interpessoais, o paciente melhora o quadro dele e o grupo é esse incentivo que eu considero extremamente eficiente. Para a pessoa que vivencia essa situação de isolamento e desconfiança é uma oportunidade ímpar de exercitar justamente isso, para depois exercitar fora, no contexto dela.


