Quem se detém na observação dos meios de co municação, du rante o espaço de uma semana, pode se surpreender com a quantidade de informações negativas envolvendo nomes de políticos e governantes. E a conclusão ligeira aparece: a corrupção está acabando com o País. São raros os Estados brasileiros que estão fora do noticiário de corrupção. E aí surge a dúvida: afinal de contas, nesses tempos de pressão pela ética e moralidade, por que a corrupção ainda é tão volumosa? Ela é maior ou menor que no passado?

Não há dúvida: a corrupção, apesar do arsenal de denúncias da imprensa, tem diminuído. A diferença básica é que, no passado, a corrupção era mais escondida, mais subterrânea, desenvolvida sob uma malha impermeável à lupa da imprensa. Hoje, mesmo assumindo formas mais sofisticadas, ela é detectada. Embala-se numa tecnologia de transferências de fundos e recursos e numa engenharia financeira, que trabalham com conceitos de superfaturamento, prestações de contas maquiadas, aprovação de programas e projetos com endereço e interesses não muito voltados para o ideário coletivo, caixinhas e caixões de campanha eleitoral etc. No entanto, apesar de toda essa engrenagem, a corrupção, hoje, é menor.

O que está ocorrendo é um processo de acompanhamento rígido dos espaços de corrupção pela mídia, fato, aliás, muito saudável para a oxigenação do sistema democrático. A cultura de investigação que se desenvolve com intensidade tanto na mídia nacional quanto na mídia regional é consequência do estágio evolutivo por que passa a sociedade brasileira.

Estamos vivendo um momento muito rico no aspecto da construção da cidadania e da moralidade. E esse ciclo de modernidade advém de um longo processo de amadurecimento e sofrimento, que se desdobra desde o impeachment de Collor, a CPI do Orçamento e os eventos subsequentes que acabaram punindo parlamentares e mandatários. O processo de desvendamento dos tecidos podres continua a pleno vapor.

Muitos se queixam do papel de investigador de polícia ou de promotor do Ministério Público que a mídia vem exercendo. Em alguns casos, há razão, principalmente quando os meios de comunicação exageram na bateria de denúncias não comprovadas, promovendo, assim, a condenação prévia dos elementos indiciados.

Mas o efeito positivo do trabalho da imprensa acaba sendo maior do que os fatores negativos gerados pelo denuncismo exacerbado. O Brasil, esta é a verdade, está sendo passado a limpo, a duras penas e de maneira consistente com um novo ordenamento social, onde os valores da ética, da dignidade e da transparência emergem como indicadores de consolidação institucional.

Quem quiser continuar fazendo tramóia, até pode, sabendo, porém, que mais cedo ou mais tarde, será pego com a boca na botija. Além da imprensa, a sociedade ganhou corpos funcionais mais atentos. Os membros do Ministério Público merecem destaque na insuperável tarefa de levantar o lixo debaixo do tapete. Cometem exageros? É até possível; fazem, porém, mais bem do que mal. Por isso, sua ação deve ser apoiada pela sociedade.

Na administração pública, nas esferas federal, estadual e municipal, novas levas de funcionários, de visão mais responsável e consciente de suas responsabilidades, detectam distorções. E, nesse ponto, cabe uma dedução: muita coisa que está aparecendo na mídia é fruto de informações passadas por funcionários públicos.

O lado negativo desta questão é o partidarismo ideológico que motiva a passagem de informação ''por baixo do pano''. Sabe-se que a maioria das fontes pertence a partidos políticos que querem tirar proveito das denúncias e, desta forma, ampliar as condições políticas das agremiações a que pertencem. Esse comportamento é condenável.

Políticos, governantes e homens públicos precisam começar a decorar o vocabulário ético. Basta aprender e internalizar três conceitos: dignidade, que abrange os campos do comportamento pessoal; respeito à coletividade, cujo eixo é o cumprimento de todos os compromissos assumidos nas campanhas; e cidadania, que deve incorporar as demandas mais legítimas dos cidadãos, aqui compreendidos como direitos individuais e sociais, como a escola próxima da casa; a habitação condigna; a segurança; o transporte rápido, barato e fácil; o saneamento básico; a saúde e equipamentos hospitalares modernos e de fácil acesso.

O povo só exige que políticos e mandatários cumpram o seu dever com lisura, despojamento pessoal e despreendimento. Passar a vassoura no País é um exercício de fortalecimento da democracia.



- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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