Uma teoria da traição
Líderes e dirigentes do PMDB ligados ao governo criaram novo critério para indicação da eventual candidatura do partido à Presidência da República: a possibilidade eleitoral de vitória. Não estão em causa o mérito, o passado, a coerência programática, a experiência, as qualidades morais do presidenciável. Nada.
O importante é que o candidato, à época da escolha, quatro meses antes do pleito, pareça viável nas urnas. Como apurar esse fator? Tais próceres não dizem, mas confiam em pesquisas eleitorais, o dogma cabalístico da atual política no País.
Pesquisas todos eles sabem refletem o pensamento em geral fugaz dos eleitores ao opinarem. Por essa norma falível, sem considerar a consistência de valores que devem nortear os partidos, para torná-los confiáveis, tudo é possível. Em 1989, muitos deles não elegeriam Collor, tão funesto ao Brasil. Mas também não apoiariam, em 1994, o presidente a quem hoje exaltam e servem. No início da campanha, um e outro pareciam condenados à derrota, em termos de pesquisas.
Eleições não são loteria, na qual o eleitor joga pensando em acertar o nome do ganhador. Tal acerto irresponsável pode não passar de trágico desacerto. Quando se orienta pela aparência das pesquisas e outras aparências, ou crê em promessas e não pesa o estofo ético dos que as fazem, o eleitor corre o risco de repetir erros que quase sempre o desgraçam e aos seus semelhantes.
O brasileiro tem uma virtude notável, forjada, parece, na paixão futebolística: abomina os que traem seus clubes preferidos, como não perdoa os grandes traidores de nossa história, os Calabares e Joaquins Silvérios.
Muitos políticos, por oportunismo, ignoram tal verdade. Preferem o imediatismo do poder aos princípios de uma democracia social, justa, estável, decente. Na qual o eleitor escolha livremente o candidato que deseja, não o de grupelhos e interesses escusos que o induzem, por trucagens e contra sua vontade, a deixar tudo na mesma: o melhor dos mundos para as elites; o pior, para o povo.
Tal regime não se produz com baixezas, mentiras, pressões, trocas de favores, compra de consciências ou subserviência aos poderosos. Esses passam e o povo fica. E, mais dia, menos dia, descobre, com nojo e raiva, quem foram seus traidores.
Alguns estão no PMDB com seis milhões de militantes e dois ex-presidentes , cuja cúpula, porém, pelo terceiro pleito seguido, não quer candidato próprio, para apoiar o governo. É o rastro imoral de políticos na política destes dias no Brasil.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





