Quando o extraordinário torna-se cotidiano - é a revolução. Esta frase de Che Guevara dá o que pensar no momento em que são publicadas pesquisas onde Lula e Fernando Henrique estão empatados.
Calma, a revolução contida na frase do argentino, amigo de Fidel, não quer dizer que Lula seja o iluminado intrépido que irá transformar o País. Para o mal ou para o bem. Talvez até as coisas sejam bem ao contrário. O que revelam os resultados dessas pesquisas, segundo alguns analistas independentes, é o resultado de uma profunda insatisfação por parte do povo que se imagina sem saída por cima e por baixo.
A revolução está se dando de forma suave, se é que pode dizer assim. As pessoas estão sofrendo aos poucos porque não têm educação, não têm saúde, não têm transporte e, principalmente, não têm emprego. Além de estarem expostas a outras violências, principalmente, físicas. Isso acontece com os pobres. Mas o extraordinário não fica só neste plano. Na classe média o sucateamento da qualidade de vida é avassalador.
O sujeito não tem dinheiro para pagar a escola dos filhos. Os projetos de vida, tão caros e tão peculiares na classe média, estão completamente dizimados. E há o pavor com a segurança que não existe mais, não só nos grandes centros, mas, também, nas cidades médias e pequenas.
Proletarizada, a classe vê, pasma, surgirem governos paralelos como nos morros do Rio de Janeiro, onde o tráfico comanda e dá ordens. É tal a desfaçatez desse governo paralelo que os candidatos às eleições oficiais têm que pedir permissão aos traficantes para fazer campanha, com hora marcada, nos morros. Em São Paulo, o contingente da guarda particular, da guarda de segurança contratada pelo setor privado é maior que o da Polícia Militar.
A perplexidade é vertical. Também os empresários estão preocupados. Eles não falam alto, mas querem saber onde tudo isso vai parar. Um dos principais consultores desses empresários, para botar lenha na fogueira, anda dizendo que mais alguns anos só restará a Votorantin como empresa nacional.
A empresa de auditoria KPMG contou 94 fusões e aquisições no Brasil durante o primeiro trimestre desse ano. A saber: foram 38 em 95, 64 em 96 e 87 em 97. O pessoal enfiou o pé no acelerador. O vice-presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, quer saber quem são esses novos controladores das empresas brasileiras. Segundo Piva, o País precisa conhecê-los melhor, pela via do diálogo aberto.
Para alguns críticos do sistema está acontecendo - e não é de agora - uma ‘‘mudança social regressiva’’. Um processo que erodiu as bases do Estado de bem estar social e bloqueou o Estado desenvolvimentista, beneficiando uma política monetária da qual o Estado se torna prisioneiro.
Esses críticos dizem que os direitos civis, sociais e econômicos transformam-se em obstáculo à acumulação da riqueza. E aí chega-se a um determinado ponto em que parece que vários países da América Latina abandonam a idéia, desistem de integrar a população seja à produção, seja à cidadania.
Tudo isso incomoda. Dá uma sensação de desconforto que pode estar provocando esses resultados nas pesquisas. O extraordinário que virou cotidiano pode ter como causa esses movimentos.
E interessante: Lula não está sendo visto pelo eleitor como salvador de nada, como homem talhado para endireitar nada. Além de ter que carregar o Brizola, que não é mole.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em são paulo

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