A reforma agrária era uma das bandeiras do PT, e uma vez no poder, nem o partido e nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deram atenção ao problema. O confronto entre sem-terra e proprietários rurais, que aconteceu quinta-feira em Cascavel, é apenas uma das muitas erupções que têm acontecido e irão acontecer. Os autênticos colonos que não têm seu quinhão próprio - autênticos porque grande parte dos que perfilam no MST nunca pegou em cabo de enxada - têm direito à busca de um lugar para plantar e colher, mas os que já possuem sua terra precisam da mesma forma defendê-la. Porque também custou a eles ou a seus antepassados aquiri-la e preservá-la. Eles não se apropriaram da propriedade por usurpação mas reuniram suas economias e a adquiriram, dali tirando o sustento, pela persistência no trabalho. Quem viu a foto publicada ontem na primeira página deste Jornal deve ter percebido um proprietário rural usando o tacão da botina contra um sem-terra, e de sua vez um ''camisa-vermelha'' com um pau na mão. Que certamente não era um adorno. Quem tem terra põe-se em posição de guarda para defendê-la e quem não a tem quer tomá-la de quem tem. O embate não deveria ser entre essas duas facções, mas de ambas contra o Governo, porque se for elaborado um programa consistente de reforma agrária (que não consiste apenas de dar terra) essa briga termina. O Brasil dispõe, ainda por explorar, de 90 milhões de hectares de terra arável de campo aberto, portanto não é preciso derrubar a floresta amazônica e nem avançar sobre lavouras produtivas para acomodar os verdadeiros colonos que têm o propósito de cultivar. Não, naturalmente, os oportunistas que se engajam nos movimentos dos sem-terra visando ganhar um lote e depois passá-lo adiante. A verba federal já repassada para os assentamentos e para a assistência aos acampados se prestaria melhor se destinada a um projeto inteligente de reformulação agrária. Só assentar não resolve, porque se os tradicionais colonos já enfrentam dificuldade com toda a experiência que têm, com os novos ocupantes de terras (mesmo que muitos tenham conhecimento da lida) não será diferente. Se o Governo não resolve a questão da terra - até porque nunca se dedicou firmemente a isso - os sem-terra atacam a propriedade alheia, e os donos obviamente a protegem. Não há que ficar em discussão acadêmica para saber-se quem é o mais valente nessa luta, e sim a inteligência deste país cercar o Governo e exigir programas viáveis e sustentáveis para solucionar de vez o problema agrário. Que não é tão difícil, porque o principal existe, que é a abundância de terras.

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