O mais recente documento da Igreja Católica trata do Holocausto. ‘‘Nós recordamos, uma reflexão sobre o Shoᒒ, convoca todos os católicos a se unirem em reflexão sobre a catástrofe que se impôs ao povo judeu durante as décadas de 30 e 40 - uma tragédia que não pode ser jamais esquecida. Para uns, esse documento não foi satisfatório, foi mesmo decepcionante diante do que se esperava. O documento traz um pedido de perdão por seus filhos que se extraviaram durante o nazismo, cita frase contrária ao anti-semitismo do Papa Pio XI, na Encíclica Mit brennender Sorge (1937); e de Pio XII, Summi Pontificatus (1938) que condena a deificação do Estado e as teorias contrárias à unidade da raça humana. Reconhece o trabalho de muitos católicos que se empenharam em livrar judeus das garras nazistas, mas não é explícito quanto à possível colaboração de importantes membros do clero com o regime de Hitler. Faz um ‘‘mea culpa’’, mas não conta todo o pecado.
O que torna o documento mais decepcionante é que se esperava mais de João Paulo II, em razão do que ele já havia manifestado anteriormente em relação ao Shoá. Mas o Papa não é um ditador, ele governa a Igreja juntamente com um Colégio Episcopal, portanto sua vontade não é única ao elaborar um documento da Igreja. Também, nem os líderes e membros da Igreja têm a mesma coragem de João Paulo II e estão preparados para uma ‘‘mea culpa’’ de tal proporção. Como um pastor, o Papa conduz a Igreja, escolhendo o melhor e possível caminho.
É certo que há uma manifesta intenção de resguardar o Papa Pio XII e as outras lideranças da Igreja da Europa. Não há razão que justifique tal ‘‘proteção’’ a uma postura que levanta tanta suspeita. A história é recente e há testemunhas vivas e de lúcida memória. Por que, então, não rever o papel de Pio XII e de outros durante o regime nazista? Diria um antecessor de Pio XII: ‘‘Não temos medo da verdade’’. Então por que tal pudor justamente agora que se pretende um sério preparo espiritual e moral para o terceiro milênio? Se a Igreja não trouxer o caso à luz da verdade, a história irá trazê-lo. Não se trata, de maneira nenhuma, de fazer uma acusação infundada ou mesmo sugerir a culpa de Pio XII; trata-se sim de se buscar a verdade dos fatos, uma vez que a sua atuação durante o regime nazista desperta suspeitas. Enquanto não se fizer uma profundo exame de consciência - da história - não haverá reconciliação com o povo judeu e com a humanidade. Os homens só podem viver juntos - e desenvolver um diálogo realmente fraterno - se houver confiança recíproca, quer dizer, se manifestarem a verdade uns aos outros.
Por outro lado, o documento é inegavelmente positivo. Dando continuidade ao anterior, Nostra Aetate, de 1965, e retomando importantes trechos de discursos do atual Papa referentes ao trato com judaísmo, ele (o documento) reconhece a culpa da sociedade cristã no desenvolvimento do nazismo; pois só uma sociedade de arraigado sentimento antijudaico poderia servir de ninho para o crescimento de hedionda ideologia. Embora a Igreja nunca tenha caminhado na trilha de tal filosofia pagã, e não tenha sido co-responsável com o regime, sente-se responsável e pede perdão por seus filhos que se extraviaram interrogando-se quanto a sua influência na formação dessa mentalidade. Nunca houve tão terrível perseguição aos judeus quanto aquelas que aconteceram na civilização cristã. Há uma longa história antijudaica que deve ser revista - e desta, a Igreja cristã quer se redimir.
O documento ‘‘Nós Recordamos’’ não pode ser lido sozinho. Ele é um complemento, uma continuidade dos anteriores, e também deve ser avaliado juntamente com as conclusões do encontro de teólogos para tratar do antijudaísmo no ambiente cristão, realizado no Vaticano em outubro do ano passado. Assim podemos percebê-lo com mais otimismo.
Ao admitir que o nazismo cresceu num ambiente cristão, admite-se o alto grau de antijudaísmo existente na Igreja - na teologia, na pregação dos padres, nos escritos destinados à formação - e, portanto, a urgente necessidade de sanear as fontes de tal sentimento. Para isso, não basta afirmar que os cristãos são herdeiros espirituais dos judeus, que os patriarcas são comuns, que Jesus era judeu, que o Deus é o mesmo... é preciso também mudar conceitos, formar uma nova mentalidade dentro da Igreja. Todo empenho gerado a partir da Nostra Aetate não foi suficiente. É preciso rever a forma de interpretação dos textos bíblicos e elaborar uma teologia dimensionada ao diálogo religioso com os judeus. Não se trata de invalidar dois mil anos de exegese e teologia - rica tradição da Igreja - mas de se fazer uma releitura à luz de um novo tempo. Acredito que esse documento abre as portas para tal caminho. Que no futuro então - à medida em que as lideranças religiosas de cada diocese forem sensibilizadas - haverá uma mudança da mentalidade.
O documento ‘‘Nós recordamos, uma reflexão sobre a //aoᒒ é um empenho da Igreja Católica em preparar e preparar-se para o terceiro milênio que virá. Ele faz parte de uma revisão interna da Igreja, do seu desejo sincero de superar erros, de ser uma testemunha da Boa Nova de Jesus. A Igreja quer continuar sua missão profética no mundo, quer ser uma luz entre os povos. Aliás, é um missão que tem em comum com Israel.
É justo e necessário que a Igreja - todas as Igrejas Cristãs - e Israel realizem essa missão. Que os documentos sejam então verdadeiras expressões do desejo de diálogo de irmãos. Que a fria democracia de muitos de nossos líderes seja transformada em gestos brotados do coração. Que esse documento possa sensibilizar a todos, cristãos e judeus, para a tarefa que temos em comum. Que os seis milhões de ‘‘chamas da memória’’ iluminem nossa consciência e sensibilidade por todos aqueles que sofrem os efeitos da discriminação, que têm seus direitos negados por serem pobres, estrangeiros, ‘‘diferentes’’.

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