A pesada discussão em plenário entre dois ministros do Supremo Tribunal Federal e vista pela TV por toda a população não representa uma crise institucional no âmbito da Justiça, mas mostra coragem e independência, ao menos, de um dos membros da Corte perante o presidente do STF, Gilmar Mendes. Quem o enfrentou - durante debate de uma lei em pauta - foi o ministro Joaquim Barbosa, que o acusou de ''destruir a credibilidade do Judiciário'' e ''não ter condições de dar lição de moral em ninguém''.
Mendes revidou no mesmo tom, num autêntico bate-boca como não se ouvira antes entre tão destacadas autoridades do Poder Judiciário, ainda mais tendo como um dos protagonistas o presidente do Supremo. O episódio, como não poderia deixar de ser, causou reações no âmbito dos Poderes em todo o País e no seio da opinião pública. Porque o que ocorreu não foi uma mera divergência de ideias atinentes às sessões desse poder.
Gilmar Mendes tem aparecido bastante na mídia e - depois da cena pública de quarta-feira à noite recebeu críticas, por conta de ''sua voluntariedade'', como declarou o subprocurador geral da República, Wagner Gonçalves. (Voluntariedade quer dizer capricho, obstinação, arbítrio e atributo dos que agem por impulsão do momento). ''É muito importante que se diga que muitas vezes o ministro Gilmar Mendes se apresenta como o Supremo, mas o Supremo não é o ministro Gilmar'', declarou Luiza Cristina Frischeisen, procuradora regional-chefe da República, em São Paulo. Na opinião do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Cezar Britto, o incidente provoca descrença da sociedade no Judiciário, mas visto sobre outro ângulo pode-se enxergar nisso a ausência de subserviência e um certo brado democrático, mesmo no âmbito desse poder supremo. A troca de acusações ocorreu depois de Gilmar Mendes, como presidente da Corte, fazer críticas a um parecer de Barbosa. Isto provocou um revide: ''O senhor deve saber que não fala com seus capangas de Mato Grosso'', em referência ao Estado natal do presidente do STF.
Mendes declarou ontem que o episódio (tido como superado) ''não deixa marcas'', mas esta não é bem uma verdade. Ele costuma fazer pronunciamentos pela imprensa (e colegas ministros não concordam com muitas coisas que ele diz). A própria Associação dos Juízes Federais do Brasil já se pronunciou publicamente contra ele. Foi dito que ''ele deixa dúvidas sobre sua postura em relação ao combate à impunidade''. O caso deixa, sim, uma forte marca, e talvez contribua para conter ''a voluntariedade'' do ministro titular de tão elevada Corte.

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