A classe operária já não é a mesma que foi na época de getulista, quando Vargas teve de decretar que dois terços da mão-de-obra empregada nas unidades produtivas em solo brasileiro fossem compostos por tupiniquins. Um ato revolucionário de grande alcance pouco considerado pela esquerda periférica brasileira. Pelo menos o José, o Benedito, o Joaquim, o Antonio, o Pedro e outros conseguiram assegurar um posto de trabalho e um centro de treinamento educacional, que é a fábrica. O ‘‘status’’ de operário era a Carta (e ainda é para milhares de brasileiros de alforria para o exercício da plena cidadania.
Hoje, mais de 60 anos depois, a classe operária brasileira entra para o mundo da robotização com a mesma dignidade que entrou para o mundo da mecanização. Somente que agora com maior experiência. já não depende de um decreto nacional-paternalista de um chefe de Estado. Já não vê patrão o seu inimigo número um.
A questão não é destruir o patrão, e sim domesticá-lo, tanto quanto seu capital. O patrão nada mais é que um privilegiado pelo direito à propriedade privada. Ele pode ser útil ao trabalhador, desde que lhe assegure seu posto de trabalho. O problema maior é a socialização do capital e não a destruição do patronato. E a melhor forma de enfrentar o capital é enquadrá-lo como objeto e não como sujeito da produção. O patronato sem a produção perde o poder de mando e seu capital, a função social.
Mas a realidade que a classe operária brasileira enfrenta atualmente é que Getúlio não conseguiu construir seu Estado nacional direcionado para o bem estar dos tupiniquins. Desde a era getulista, a sociedade brasileira sofre contínuo assédio econômico por parte do capital internacional. Assédio muitas vezes privilegiados pelas autoridades centrais, como foi a era juscelinista e a presente fernandina.
Hoje, a maior parte do capital que desempenha a sua função social nos meios de produção brasileira pertence às multinacionais operando no espaço econômico brasileiro, o que significa que a identificação do patronato se encontra diluída no contexto da amalgamação do capital internacional. Para o operário brasileiro da era fernandina, já não é a questão do capital ser dominada pelo ‘‘Tycoon’’, seja ele brasileiro ou estrangeiro.
O problema é o da tecnologia aplicada nos meios de produção, a maior parte delas em benefício da poupança externa aplicada no espaço econômico brasileiro. E o trabalhador nacional, conscientizado pela presente geração de sindicalistas, sabe muito bem que a função da tecnologia nos meios de produção consiste, primordialmente, em poupar a força de trabalho humano. E é claro, um operário fora da operação de uma máquina que justifique sua existência é um vago, tanto quanto um médico fora de seu consultório ou um político sem mandato e sem ideologia partidária.
A atual classe operária brasileira já não trabalha com a foice e o martelo. Manuseia instrumentos altamente sofisticados e cada vez mais com alto grau de agregado de alta tecnologia. Já não se faz um operário da noite para o dia. O caminho da aprendizagem é longo, moroso e custoso, o que significa que a mobilidade do operário da era da foice e do martelo é coisa do passado. O operário brasileiro já se encontra no estágio de consciência de que sua vida útil como operário está diretamente relacionada com a sua capacidade de estar sempre aprendendo sobre o seu ofício: a educação ao longo da vida (‘‘long life education’’).
Ele sabe que é fácil e tem meios de como lutar contra o patronato, mas também a consciência de que seu adversário maior já não é mais o patronato, e sim o eterno avanço tecnológico, que pode sucatear, precoce e moralmente, sua mão-de-obra, tanto quanto a maquinaria de produção da patronal. E o pior, de que o capital na sua unidade produtiva sucateada moralmente significa seu retrocesso na escala da eterna aprendizagem, e que a tecnologia e o avanço tecnológico não se encontram no capital pecuniário, e sim no capital cefálico, ao qual a utilidade de sua força de trabalho está ligada.
Sem dúvida, uma questão trabalhista de solução forçosamente política, que exige da sociedade brasileira que forje, a ferro e a fogo seu estadista, e não políticos servis em nome da democracia de uma minoria de assimilados. Uma era pós-industrial que exige um novo Vargas como ponto de referência na defesa de uma política tecnológica que sirva ao desenvolvimento integral brasileiro, e não homens assimilados a serviço da transição tecnológica do capital especulativo internacional, defesa esta feita em nome da estabilidade monetária nacional.
Mas Vargas está morto (?!!!), e o pior, ainda querem acabar com o Estado de Vargas. Se isso acontecer, não será mais o operário brasileiro o objeto da ‘‘questão trabalhista’’, e sim a patronal brasileira com suas unidades produtivas sucateadas precocemente e sem condições financeiras de recompô-las. Uma questão trabalhista que concerne não somente à classe operária brasileira, mas também à patronal nacional brasileira.

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