Uma questão de patriotismo - Editorial
Uma questão de patriotismo
Considerado um dos bons períodos para venda, só perdendo para o Natal, o Dia da Criança acabou sendo convertido em mais uma etapa do complicado marketing comercial com vistas aos negócios. E não há dúvida de que este tem sido um dos mais importantes aspectos da data, do ponto de vista econômico, o que, vale destacar, não invalida a celebração. Pelo contrário: um bom movimento comercial constitui fator positivo para melhorar o mecanismo da economia. Equivocam-se os que tentam desdenhar ou até minimizar a data, assim como outras em que são homenageados pais, mães, namorados ou profissionais de várias áreas, por causa do aspecto comercial que é por si importante. Ademais, este é apenas um dos lados desta como de tantas outras homenagens que se prestam no calendário a pessoas ou entidades.
Paralelamente a este aspecto, há o outro. O Dia da Criança acaba servindo como ponto de partida para que a candente questão envolvendo os menores seja enfocada de maneira mais ampla. Este modo que se criou de escolher uma data no calendário para determinada comemoração serve para, no mínimo, provocar um enfoque mais direto. Dizer que todos os dias deveriam ser da criança, assim como muitos falam que todos os dias são do pai, da mãe, do professor, da secretária evidencia desconhecimento até da psicologia humana. É preciso fazer o destaque para chamar a atenção. Assim como já há concordância ante a tese segundo a qual caridade não é ação, mas reação (o que significa que as pessoas ou coletividades se sensibilizam com alguma tragédia e, por causa dela, reagem tentando ajudar as vítimas do evento), também é possível considerar o mesmo diante das comemorações específicas. Com todas as chamadas e lembretes sobre a data e o motivo, criam-se condições para uma mobilização maior em relação ao assunto.
O Brasil tem se preocupado bastante com a criança. Houve avanços significativos nos últimos anos, incluindo aí a formulação de leis específicas mais diretas para sua proteção. Infelizmente, porém, é mister reconhecer, leis não resolvem problemas e, no caso da infância, ainda há muito a fazer, até porque esta questão, naturalmente, se mistura com todas as outras no âmbito social. Crianças abandonadas, desamparadas, famintas não surgem no mundo por acaso. São filhas de pais e mães igualmente carentes. Há uma enorme cadeia de carências sociais a formar o quadro final de miséria que envolve crianças, adultos e velhos. Também por isto, pensar-se na problemática da infância apenas pela ótica de ações visando amparar as crianças abandonadas constitui apenas parte do assunto. O maior desafio seria o de propiciar condições para que aqueles que geram crianças sem possibilidades tenham melhores perspectivas de vida. Em verdade, o trabalho é muito mais amplo, enorme. Todavia, e este sem dúvida teria de ser um dos principais enfoques, é uma tarefa que tem de ser realizada.
Com todos os problemas econômicos que o País enfrenta, é fácil aceitar as alegações oficiais sobre a falta de meios para mudar esta situação, amparar melhor as famílias, produzir condições mais adequadas para a vida dos milhões de marginalizados, o que envolve pessoas de todas as idades. Todavia, encontrar soluções para todo este quadro dramático é vital. Já se exigiu sacrifícios demais da parte mais carente da população brasileira. Uma política social concreta, que viabilize condições para melhorar a vida de todos, mas de modo mais direto dos que têm maiores carências, é imprescindível. A meditação, a análise, o estudo em torno dos problemas da criança precisam encontrar medidas concretas para mudar um panorama desumano e inaceitável. A tragédia da miséria precisa ser enfrentada com patriotismo.





