Uma questão de decoro público
É inaceitável a proposta de duplicação do ganho dos 27 secretários estaduais no Paraná, quando professores, profissionais da saúde pública e agentes de segurança recebem tão pouco e lutam há tantos anos por melhoria salarial. Porém, ainda mais indecorosa do que essa proposição é a declaração de deputados de que o momento é inoportuno para esse aumento por causa da véspera das eleições. Para esses parlamentares, o inconveniente é apenas essa inoportunidade e não o desembolso de mais dinheiro público, o que não acontecerá apenas no mandato dos atuais secretários, mas será permanente; é mais a preocupação com o desgaste que os políticos sofrerão e nem um pouco com a contenção de gastos, num Estado de tantas carências sociais. Depois de um certo tumulto que provocou insista-se que, somente, por causa da coincidência com a campanha eleitoral o polêmico projeto deve voltar segunda-feira à pauta, porque a pressão deve ser grande e partida de uma poderosa e numerosa esfera do poder, que é a comunidade dos secretários. Não será fácil aos deputados resistir a tão forte apelo, pela interdependência de poderes e contrapesos de interesses de parte a parte, que recomendam delicadezas de trato. Não são aí conveniências do Estado que entram em jogo e sim as de secretários, e estas ganham relevância de tirar o sono dos 54 deputados, todos interessados em não causar melindre a nenhum daqueles titulares de secretarias. E eles são tantos que correspondem a exatamente à metade do número de parlamentares. Afora os salários já vigentes e todas as ajudas de custos, serão mais R$ 160 mil mensais que o Estado terá de desembolsar para engordar o rendimento do secretariado. Certamente que os altos escalões governamentais, no Brasil, buscam nivelar-se pelos ganhos dos colegas dos países ricos, mas desprezam o quanto recebe a grande massa de servidores públicos como os da saúde, da educação, da segurança, para citar apenas os indispensáveis. A questão é de decoro público, mas tal parece irrelevante no entendimento da comunidade que habita a alta esfera da administração pública. O momento para essa benesse salarial é inoportuno por todas as razões, que não apenas a político-eleitoral, porque o tempo não é para se pensar em reforço de ganhos dos administradores públicos e sim de melhoria de eficiência não especificamente com relação aos secretários paranaenses em particular com a máquina pública em geral.





