Uma piada mórbida Kleber Boelter Funciona assim: primeiro, você inventa uma burocracia tão complicada, tão minuciosa, tão estapafúrdia que as pobres empresas, principalmente as médias e pequenas, ficam gastando uma fortuna com contadores, administradores e advogados ao invés de investirem na produção ou em salários melhores para seus funcionários. Mas, apesar de todo esse cuidado e destes gastos, as empresas nunca conseguem estar 100% corretas. É que a lei é feita para que seu cumprimento seja impossível. O motivo? Simples. Fabrica-se dificuldades para vender facilidades. A empresa na defensiva é alvo fácil para a corrupção oficiosa, seja através da cobrança de comissões em dinheiro por fiscais e outros funcionários públicos que possuem o poder do carimbo ou em favores das mais diferentes espécies, principalmente em época de campanhas eleitorais. Segundo, você cria uma das cargas tributárias mais altas do mundo se comparada ao seu retorno e, para piorar, que onere basicamente a produção e os salários e não o consumo. Mas faça isto através de um cipoal de normas, regras, taxas e todos os entraves possíveis para auxiliar o burocratismo descrito acima. E, para garantir o funcionamento desse pau-de-arara oficial, fique mudando estas normas e regras a toda hora, de maneira que nem mesmo um batalhão de contadores e advogados consiga orientar o empresário a cumprir a lei rigorosamente. Para finalizar, fabrique a taxa de juros mais absurda do Planeta, capaz de deixar qualquer agiota do mundo civilizado roxo de vergonha. Acrescente então uma política econômica caótica e instável para garantir que todas as empresas vão precisar se afundar em dívidas bancárias. Pronto! Você conseguiu! Em uma década, arrasou a estrutura produtiva do País. As empresas que não quebraram estão tecnicamente falidas pela quantidade de dívidas em bancos, fornecedores ou impostos. Com raríssimas e heróicas exceções, salvaram-se apenas as muito grandes e muito inteligentes que, diante da iminência de morte, venderam-se para gigantescos grupos estrangeiros. Ou as médias e pequenas que conseguiram correr para a trincheira da informalidade como única defesa contra o tiroteio da burocracia paralisante, da carga tributária assassina e dos juros escorchantes. Então, depois de toda esta engenharia devastadora, o governo cria um tal de Refis, com o objetivo de sugar as últimas gotas de sangue dos que ainda estão moribundos ou limpar o nome daqueles que conseguiram sobreviver na informalidade. Só que, para receber o perdão do Grande Sócio Inútil, as empresas têm que deixar o governo penetrar em sua vida íntima, mais ou menos como Calígula fazia com as mocinhas recém-casadas. É esta a piada. - KLEBER BOELTER é engenheiro e empresário em Porto Alegre

mockup