Uma pergunta para a qual não há resposta
Arlete Salvador
Impossível sentar para escrever um artigo sem ouvir os ruídos dos tiros disparados por um louco dentro de um shopping center paulistano. A esta hora, todos os especialistas em armamentos, em violência e em distúrbios da mente já foram ouvidos. Teses foram levantadas e derrubadas. Soluções para aumentar a segurança dos cidadãos foram discutidas. Todas as hipóteses para mais essa tragédia urbana foram consideradas. Apesar de tudo, uma pergunta continua sem resposta: por quê?
Jovens que poderiam ser nossos filhos, irmãos, amigos morreram num cinema. Azar? Fatalidade? Descaso? Irresponsabilidade? Vontade divina? As respostas dependem da crença particular de cada um e de sua interpretação da realidade. Mas mesmo essas possibilidades não respondem totalmente à pergunta. É que o ‘‘por quê?’’ a que me referi não é uma questão racional, não procura justificativas psicológicas, políticas ou de segurança.
É aquela pergunta que sempre nos fazemos intimamente quando uma perda terrível acontece. Nesse momento, não há argumento, justificativa ou explicação que satisfaça a incompreensão. É um ‘‘por quê?’’ tão grande e tão doloroso que abarca outros milhões de perguntas, de dúvidas e anseios sobre a existência humana.
Tem tal dimensão que não há mesmo resposta para ele. Talvez nem seja uma pergunta, mas apenas uma expressão de dor. Talvez um desabafo. Talvez quem se pergunte ‘‘por quê?’’ nem esteja se perguntando. Não quer ouvir justificativas racionais ou religiosas, explicações técnicas e psicológicas. Aliás, não quer ouvir nada nem ser confortado.
Certos vazios pessoais nunca são preenchidos.
Com o tempo, todo mundo, de uma forma ou outra, vai colecionando esses porquês. Aprende-se a viver com o vazio de uma pergunta sem resposta. Às vezes, dói mais. Às vezes, menos. Basta uma data, um cheiro, uma música e lá vem a pergunta de novo, feita em voz baixa.
Assim são as dores de quem perdeu os filhos, os irmãos, os amigos na tragédia de quarta-feira, na chacina da semana passada, na fuga de menores da Febem (Fundação Estadual de Bem-Estar do Menor) em São Paulo e no desastre de ônibus no último mês. Notícia grande dos jornais num dia, notinha no outro.
O caso de quarta-feira passada talvez tenha até um destaque maior por ter acontecido num shopping center de bairro elegante de São Paulo. Mas o seu destino é o esquecimento, como todas as outras matanças de anônimos nas chacinas da periferia. Alguém se lembra, por exemplo, do nome dos meninos assassinados na Febem? E só aconteceu há 15 dias e pouco. Dois deles ainda nem foram identificados. Não têm família nem cova.
Os pais, amigos e irmão não esqueceram. No Dia de Finados, enquanto padre Marcelo Rossi cantava com Roberto Carlos num palco, cerca de 10 mil pessoas saíam em passeata num cemitério da periferia da cidade de São Paulo. Eles traziam fitas enroladas no braço, nos bonés ou enroladas na cabeça com o nome de seus mortos, todos vítimas da violência.
São muitos porquês de uma só vez.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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