Uma pedra no caminho das privatizações - Padre Roque
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de março de 1998
Padre Roque 
A celeuma provocada pela privatização das rodovias federais me traz à mente um velho amigo meu, caminhoneiro dos bons em vias de se aposentar, que vive hoje em uma simpática cidadezinha do Oeste do Paraná. Contador de causos de primeiríssima, o bom homem tem como hábito disparar frases chistosas sempre que se encontra com os compadres em rodas de chimarrão. Um dia destes, entre uma e outra chaleira de água quente, conversamos sobre as aberrações da política brasileira.
Disse-lhe que fico indignado sempre que tomo conhecimento de uma maracutaia na administração pública, seja no município, no Estado ou no âmbito federal. Atento, em resposta à minha inconformidade, ele se saiu com esta: Está certo. É como diz uma frase de pára-choque de caminhão: Pior que estrada ruim, só político desonesto. Conhecedor que sou da política e das estradas paranaenses, não tive como não concordar com o velho amigo.
Reportagem publicada no último dia 9 pelo jornal Correio Brasiliense comprova que o adágio popular está muito próximo da realidade. Segundo o jornal, baseado em dados fornecidos pela Diretoria de Concessões Rodoviárias do DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem), pelo menos três entre as cinco rodovias privatizadas no Brasil receberam em 1997 um volume de investimentos bem inferior à bolada obtida pelas empresas operadoras com a cobrança de pedágio.
O caso mais gritante é o da empresa que ganhou a concorrência para operar a Ponte Rio-Niterói. Embora tenha arrecadado nada menos de R$ 30,7 milhões, a Ponte S/A investiu somente R$ 12,6 milhões na rodovia. A Concer, que opera a rodovia entre o Rio de Janeiro e Juiz de Fora (MG), não ficou atrás - R$ 49,4 milhões de lucro para apenas R$ 27 milhões de investimento. Nada mal para quem dizia que só obteria lucros com o negócio em cinco anos. É verdade que a empresa operadora do trecho entre Porto Alegre e Osório fez o caminho inverso - recebeu R$ 3,9 milhões e investiu R$ 11,5 milhões. Mas este caso, claro, não é regra.
Resolvi tocar nesta ferida não com o propósito de fazer denuncismo irresponsável, mas em sinal de alerta às autoridades paranaenses, já que estamos a apenas dois meses do início da cobrança de pedágio nos nove trechos já abertos à exploração da iniciativa privada: BR-277 (entre Foz do Iguaçu e Paranaguá), BR-376 (de São Luiz do Purunã a Apucarana), BR-369 (Londrina a Cambará), PR-323 (Londrina - Sertaneja), PR-444 (Londrina - Maringá), o trecho da BR-376 entre Maringá a Paranavaí, BR-369 (entre Maringá e Cascavel), BR-373 (Ponta Grossa a Relógio), e a PR-151 (Ponta Grossa a Jaguariaíva). São 2.035 quilômetros de estradas fundamentais ao desenvolvimento sócio-econômico do Estado, sobretudo no que diz respeito ao escoamento da nossa produção agrícola.
A minha esperança sincera é que estes problemas com rodovias em outros Estados não se repitam no Paraná. Não queremos que nossas rodovias sejam cedidas a tubarões da iniciativa privada, tendo que pagar taxas abusivas de pedágio, sem receber a necessária contrapartida em termos de melhoria das estradas. A minha preocupação se torna ainda maior quando consideramos as previsões, feitas por técnicos da Faep (Federação da Agricultura do Paraná), de que a cobrança do pedágio pode aumentar em até 50% o custo dos fretes no Estado.
Caso isto aconteça, temo pelo pior. Temo a equação lógica do capitalismo neoliberal: frete alto, preços majorados, queda do poder aquisitivo da população - e estradas mal conservadas. As graves consequências que podem decorrer deste problema nos autorizam a recomendar às nossas autoridades públicas extremo cuidado ao coordenar o processo de abertura da exploração das rodovias ao capital privado. Melhorar a qualidade das rodovias é preciso, sem dúvida, mas não à custa do sacrifício da população. Os paranaenses, definitivamente, não merecem isto.


