Estive assistindo ao concerto da simpática OSUEL no Zerão, dentro do festival de música de Londrina no último fim de semana. Domingo ensolarado, tarde bonita. A orquestra iria fazer um concerto dedicado a arranjos sinfônicos de música popular, como Beatles, Jobim, Milton Nascimento e outras feras. Arranjos estes, diga-se de passagem, muito bem elaborados pelo maestro Vitor Gorni.
O concerto ia muito bem quando, lá pelas tantas, o maestro anuncia que a OSUEL iria acompanhar um músico da cidade que ''por acaso'' é o Secretário de Cultura do Município. Foi patético ver a hora que aquele cidadão tomou a frente do pódio para ser acompanhado pela orquestra. Empunhando um violão, começou a cantar suas músicas com letras que falavam de Iansã, do vento e outras bobagens, versos que qualquer colegial faria melhor.
O arranjo que o habilidoso maestro escreveu para a orquestra acompanhar o secretário dava uma roupagem um pouco mais sofisticada àquelas músicas, mas meu ouvido não me traiu. Alguém precisava dizer a este sujeito que o violão é um instrumento que oferece mais do que três acordes. Qualquer dono de botequim pensaria duas vezes antes de contratá-lo para animar a clientela de seu estabelecimento. O mais inexperiente músico da OSUEL teria horas e horas de aula a dar para este cidadão que ele então acompanhava. Em suma, o secretário, como músico e letrista, é, no melhor dos elogios, medíocre.
Enquanto ouvia aquelas musiquinhas de acampamento, lembrei dos tempos de conservatório musical. Nós, músicos, aprendemos ao longo da nossa carreira que aquele lugar ao lado do pódio, diante da orquestra, deve ser valorizado, pois é destinado a um solista e não a um qualquer. Um solista, sem distinção entre erudito e popular, é um músico com considerável bagagem de talento e estudos nas costas. Não era o caso ali.
E por falar em popular, me veio à cabeça Patativa do Assaré. Este poeta de versos poderosos que do meio do sertão do Ceará, em Assaré, sem nunca ter saído de lá, sem ocupar cargos de poder, atingiu todo o país e conquistou respeito dos mais cultos aos iletrados. Da varanda de sua casa impôs sua arte ao Brasil. Arte substanciosa e reveladora. Voltando ao concerto no Zerão, o que via na minha frente era uma cena flagrante de abuso de poder. Ver a querida OSUEL se submetendo a isso foi de doer. A última vez que vi uma cena semelhante, de peixe fora dágua e abuso de poder, foi quando Paulo Maluf, na condição de governador de SP, juntou-se a seis renomados pianistas como Artur Moreira Lima, João Carlos Martins, Roberto Szidon e outros que não me lembro agora, para um concerto em sampa. Certamente pagou seu peso em ouro para o evento, o que é até compreensível. Quem quiser que aceite e assista.
É minha obrigação , como músico, escrever este texto pois senti que o constrangimento foi geral. A quem eu perguntava o que era aquele cidadão, 99% respondiam ''sei lá, é o irmão do escritor Domingos Pellegrini''. Concluí então que seu maior feito, que o habilitou a ocupar a Secretaria de Cultura, foi o fato de ser irmão do escritor. Mas a pergunta é: se ele não fosse Secretário estaria ali à frente da orquestra cantando e entoando seu violãozinho de três acordes? Não culpo meus colegas da orquestra, em absoluto, pois estes devem conhecer as sutilezas e armadilhas do poder. Já tive a honra e o prazer de atuar como flautista convidado da OSUEL em concerto no Teatro Ouro Verde. Conheço e tenho amigos nela, a começar pelo spalla, o Ratchev. Faço a minha parte.
Enfim, não sei o que este secretário fez em sua gestão à frente da Secretaria de Cultura de Londrina, mas tenho certeza do que ele nunca deveria ter feito.
Sebastião Interlandi Jr. é flautista solo da Orquestra Sinfônica do Paraná e criador do Programa ''Sarabanda'' na TV Educativa.

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