Uma nova interpretação dos sonhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de março de 2005
Tatiana Clébicar<br>Agência O Globo 
Desde 1899, quando Sigmund Freud publicou ''A interpretação dos sonhos'', descobertas científicas não produziam tanta revolução no mundo onírico. Enquanto o criador da psicanálise encarava o sonho como expressão de desejos inconscientes, neurocientistas americanos inventaram a máquina capaz de programar imagens noturnas. Essas experiências mostram que existe o sonho lúcido, diferentemente do que dizia Freud. E vislumbram, num futuro próximo, a possibilidade de usar esse controle para curar lesões físicas e emocionais.
Além disso, centros de pesquisas começam a trabalhar numa nova teoria para explicar por que e como imagens surreais invadem nossa cabeça enquanto dormimos. Os estudos não se restringem às funções cerebrais mapeadas em ressonâncias magnéticas. Nos Estados Unidos e no Brasil, experimentos também se valem de observações dos hábitos notívagos dos brasileiros, revelados tanto em questionários quanto nos laboratórios do sono.
Desenvolvida pelo doutor em psicofisiologia Stephen LaBerge, pesquisador associado da Universidade de Stanford e presidente do Instituto da Lucidez, a máquina NovaDreamer se assemelha a óculos escuros e detecta o momento em que se entra na fase do sono REM (rapid-eye-moviment, ou movimento rápido dos olhos), na qual os sonhos se desenrolam.
O aparelho emite flashes e sons que ativam o córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pela consciência, que fica adormecida durante a noite. Percebidos pelo cérebro, as luzes e o barulho ''entram'' no filme onírico e indicam que o sonho está em curso.
''Funciona como um sinal que diz ao sonhador: 'isso é um sonho'. A partir daí, a pessoa é capaz de dirigir o seu sonho'', explica Robert Waggoner, praticante de sonhos lúcidos e pesquisador da Associação Internacional para Estudo dos Sonhos, órgão que mapeou as imagens oníricas de 17 mil pessoas ao redor do mundo e descobriu, por exemplo, que o sonho mais comum das mulheres é o de serem perseguidas.
''O sonho consciente parece pequeno comparado à beleza, à criatividade do inconsciente. Consciente, a pessoa pode decidir fazer coisas incríveis. Mas um sonhador experiente percebe que o fato de estar sonhando é mais importante do que ter a consciência consciente''. Assim, aprende-se a deixar o sonho livre para que ele traga alguma informação que o inconsciente queira mandar.
Para psicanalistas brasileiros, a proposta de unir sonhos e consciência parece um pesadelo. Eles acham que os sonhos lúcidos abrem uma brecha para novas doenças psíquicas. Mas, embora defendam os sonhos livres, alguns analistas acham que o inconsciente vai encontrar outra maneira de se manifestar.
''O inconciente não será excluído'', diz Ana Benjó, da Escola Lacaniana de Psicanálise.


