Uma nova Igreja desponta
Walmor Macarini
Certamente que um pronunciamento do Papa não vai alterar aquilo que, no insondável mistério das dimensões celestiais, já é e existe, mas, pela autoridade de que ele é revestido como líder da comunidade católica e influente personalidade mundial, o novo conceito ora manifestado por João Paulo II sobre céu, inferno e purgatório pode modificar radicalmente a vida das pessoas e a sua concepção sobre a eternidade.
Sem grande destaque pelos veículos de comunicação, e até sem impacto, ainda, entre os fiéis da própria Igreja, a recente manifestação papal sobre esse tão controvertido tema foi o mais relevante acontecimento de toda a história da Igreja Católica. Porque nenhum outro papa - mesmo que, supostamente, houvesse alcançado esse grau de entendimento - jamais se manifestara. Até para não ferir os intocados cânons da Igreja relacionados com essa delicada questão de crença.
E o que disse o papa João Paulo II? Que o céu, o inferno e o purgatório não são ‘‘lugares físicos, mas estados de alma’’. Isto modifica todo o conceito que a Igreja veio passando aos fiéis ao longo de 2 mil anos.
E outra surpreendente declaração do líder espiritual de quase 1,5 bilhão de católicos (citando o livro bíblico do Apocalipse) é que imagens como as do ‘‘fogo ardente do inferno’’, onde só existe choro e ranger de dentes, precisam ser ‘‘interpretadas retamente’’.
Estas reflexões sobre o Além foram manifestadas pelo papa em suas recentes audiências públicas das quartas-feiras, mas não se esperava tamanha viravolta nessa doutrina sobre céu, inferno e purgatório.
Isto mudará, doravante, o discurso da Igreja, porque há uma nova ordem, emanada não do seio de um segmento de fiéis, mas do Vaticano.
Embora tudo sempre foi da forma como agora viu o papa, sua revelação transforma-se em novo cânon, destruindo os existentes relacionados com essa questão, que é a mais relevante e inquietante, pois trata da vida após a morte. E agora segundo uma nova visão.
As igrejas tradicionais do Ocidente nunca ousaram incursionar por esses caminhos, pois se nunca souberam ensinar o princípio, como ensinar o fim? O princípio é a origem da essência espiritual, temporariamente encarnada no homem; o fim é o retorno a essa condição - a plenitude do estado de alma de que fala o pontífice.
Enfim, pela voz do papa - infalível perante seus fiéis, e que com certeza começará a ecoar com forte ressonância sob as abóbadas dos templos - não há ‘‘um paraíso entre as nuvens’’, onde estaria Deus, nem ‘‘o fogo eterno’’. O paraíso é ‘‘uma relação pessoal com Deus’’, disse. Pelas suas palavras, os ‘‘estados de alma’’ - que substituem os ‘‘lugares físicos’’ de um céu e um inferno que sempre nos passaram como existentes - são a comunhão com Deus.
Disse o papa que ‘‘no sentido teológico’’, o inferno é ‘‘a última consequência do pecado, que se volta contra quem o cometeu’’. E (surpreendente!) que não se deve criar psicose e angústia com pensamento de inferno.
Como demorou a Igreja para dizer isto aos fiéis!
Ou, como demorou (e atemorizou) tanto dizendo exatamente o contrário!
Este limiar do terceiro milênio será o das grandes revelações e do despertamento e expansão da consciência. Porque finda-se um período (não ainda o fim do mundo...) e inicia-se outro, agora mais luminoso, embora - até pelo extertor de um fim de tempos - muito agitado. Inicia-se um processo de realinhamento, e todo ajuste gera turbulência.
O pronunciamento do papa, embora não constitua uma revelação, o é para aqueles que vieram se limitando ao aprendizado dentro dos templos e nunca penetraram em seu ‘‘estado de alma’’, o seu templo interior.
Ao dizer, referindo-se ao trecho bíblico do Apocalipse, que aquelas imagens ‘‘têm de ser interpretadas retamente’’, ele abre um vasto campo para reflexão sobre a forma de entender as Escrituras.
Se o que agora revela João Paulo II não é estranho a uma notável plêiade de habitantes deste planeta, o novo enunciado papal irá com certeza revolucionar os procedimentos de evangelização da Igreja Católica, com reflexos sobre as demais, de rito bíblico. Nem o próprio clero deve ter-se conscientizado, ainda, da profundidade das palavras de seu chefe supremo, mas é certo que o discurso da Igreja será diferente, de agora em diante, e que as missas não serão as mesmas.
Foi muita coragem de parte do papa proclamar esta nova postura.
Com a recolocação do céu em seu devido lugar, não ‘‘entre as nuvens’’, e da negação do paraíso e do inferno como lugares físicos, a Igreja repõe Deus dentro da alma de cada um - em verdade onde Ele nunca deixou de estar. E ao negar o ‘‘inferno de fogo ardente’’, nega implicitamente o demônio. Que, assim como o paraíso, é também um estado de alma.
Uma nova Igreja se esboça. Parece que faltava ao papa este toque em seu ministério à testa da grande nação católica. Agora sua missão se completa.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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