Uma nova Igreja desponta?
Frei Fabiano ZanattaTodas as quartas-feiras, o papa recebe em audiência coletiva milhares de fiéis do mundo todo que passam pelo Vaticano. Nestas quartas-feiras, o papa sempre faz uma pequena homilia catequética, abordando temas do momento, ou então uma sequência temática de teologia. No mês de julho, o papa abordou alguns temas de escatologia. Fez uma breve catequese sobre a existência do céu, purgatório e inferno, que são realidades atinentes à fé católica, e evidentemente, dados da revelação bíblica.
Quanto à existência destas três realidades, não estamos diante de um tema controvertido. Fazem parte pacífica do Credo da Igreja. Se alguém não o quiser aceitar, é sempre questão pessoal, mas a opinião de tantos não faz que aquilo que nós consideramos verdade revelada perca sua força.
Na oportunidade, o papa explicou que céu, purgatório, inferno, não são lugares físicos, mas estados de alma; céu é estar em plena comunhão com Deus, é relação pessoal com Deus.
Sem dúvida é uma nova forma de expor pontos essenciais da fé; embora, sendo eles essenciais e revelados, nunca nós teremos suficientes conceitos para abordá-los e por isso, tais conceitos serão sempre reformulados. Os conceitos podem e necessitam ser reformulados, mas a verdade é sempre a mesma.
Nas quartas-feiras, o Papa faz catequese. Eventualmente pode colocar enfoques totalmente novos, mas habitualmente ele expõe aquilo que a maioria já sabe... Um pouco como a catequese das crianças. As catequistas sabem a doutrina a ser transmitida, embora as crianças não o saibam. Não é porque as crianças não o saibam, que o ensino das catequistas traz uma novidade para todos, mas só para quem desconhece o assunto.
Um pouco assim acontece com as catequeses papais. Ora, na abordagem do assunto acima referido, houve surpresas no mundo jornalístico. Houve mudança no credo da Igreja? Caiu ao chão aquilo que sempre foi proposto de forma uníssona pela Igreja? Para os católicos, para o Magistério, não.
Mas houve quem escrevesse assim: ‘‘...A recente manifestação papal sobre esse tão controvertido tema foi o mais relevante acontecimento de toda a história da Igreja católica. Porque nenhum outro papa jamais se manifestara. Até para não ferir os intocados cânones da Igreja relacionados com essa delicada questão... Isto mudará, doravante, o discurso da Igreja, porque há uma nova ordem emanada não do seio de um segmento de fiéis, mas do Vaticano.’’
Gostaria de lembrar que tal colocação catequética (e não dogmática) não é tão nova, nem assombra os católicos que acompanham a reflexão teológica e exegética da Igreja, e nem o papa recebeu tal revelação do anjo Gabriel diretamente do céu... Não é tão nova, porque é doutrina corrente nos seminários e escolas teológicas.
Esta colocação, está em todos os atuais manuais de escatologia. Esta doutrina faz dez anos que estou transmitindo aos estudantes de teologia do Instituto Paulo VI, no sétimo período de estudos, e está na apostila que passo aos seminaristas.
E tem mais: no século XV o Concílio de Florença definiu que o purgatório não é um lugar, e nem o fogo é instrumento de purificação no purgatório. Afirma-se explicitamente que o purgatório é um estado em que os defuntos são purificados. Século XV!
Em linguagem mais simples, no século XVI, Santa Tereza de Ávila, que foi proclamada doutora da Igreja pelo papa Paulo VI, ao explicar a oração do Pai Nosso, perguntava onde estava o céu... e respondia: ‘‘Onde está Deus...’’ Então não é necessário olhar para o alto, complementava, pois Deus está no seu coração... E o papa, nas entrevistas de julho dizia que o céu tinha início por aqui. Aliás, isso também não é novidade.
Como se pode ver, houve algum cochilo em se afirmar com tanta ênfase a novidade de um enfoque que já tem séculos, ou a nível global de Igreja, várias décadas. Como o bom senso faz perceber, não existe nenhuma novidade em campo teológico, nem se trata do mais relevante acontecimento de toda a história da Igreja.
Por certo, continuamos com certas categorias espaciais para falar de céu, céu no alto... correspondem a uma facilidade didática. Continuamos falando do inferno como lugar de fogo, porque o fogo é um dos tormentos maiores que se pode pensar. Agora, afirmar que o inferno é lugar de fogo, autoriza a dizer que o céu é a mesa de um banquete, conforme as parábolas de Cristo. Ora, afirmar o céu assim é muito pouco para quem morreu na cruz e fala do reino como algo não deste mundo.
Todo mundo sabe que estamos no tempo pós-Galilei, mas mesmo assim todos dizem que o sol nasce lá e desce no outro lado... isso não invalida a astronomia. É uma linguagem mais fácil, e ao menos mais acessível às crianças.
- FREI FABIANO ZANATTA é doutor em Teologia Sistemática e professor de Escatologia em Londrina

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