Uma nova cidadania
O movimento de mulheres no mundo é o movimento humano mais forte do século 20. Questiona não apenas o movimento social, mas a ciência, a educação, o conto de fadas, a religião... A transformação é surda e silenciosa.
A mulher brasileira avançou no emprego, na cozinha, na parada de ônibus, na cama, no analista, nas associações femininas, no seu próprio imaginário ou nas estatísticas oficiais: A mulher brasileira não é mais a mesma. Começou a se reconhecer como agente de uma mudança possível. Percebeu que o que considerava privado é, na realidade, político, necessitando ser discutido na esfera pública.
O grande salto deu-se através do ingresso da mulher no mercado de trabalho. Em apenas 20 anos, o número de mulheres economicamente ativas no País, multiplicou. Entretanto, no Brasil, a mulher que quer e precisa trabalhar acaba dando salto de trapezista sem rede de sustentação. Não tem sequer garantia de creche ou pré-escola para os filhos.
As mulheres são somente 2% entre os altos executivos brasileiros. A discriminação não se traduz no número de mulheres presentes nos setores produtivos, mas pela diferença de remuneração, apesar de apresentarem maior escolaridade, em todos os níveis.
Embora as mulheres representem aproximadamente 40% da população economicamente ativa, elas estão sub-representadas nas entidades de classe e ausentes na direção das entidades patronais. Nos sindicatos de trabalhadores a presença das mulheres na direção fez aparecer alguns itens de pautas sindicais como horário-amamentação, licença-maternidade, auxílio-creche, etc...
As surras do marido também começam a ser julgadas pelo que são crime em foros públicos. Há 500 anos a equação dos papéis sociais permanece congelada na formula: empregada doméstica = mulher. Como a esposa também é mulher e dois e dois são quatro as tarefas domésticas, na ausência da empregada, são dela.
Sem o rompimento dessa extensão quase epidérmica do feminino com o caseiro, realimentada na cabeça, ora do homem, ora da mulher, não há profissão que diminua a sobrecarga da dupla jornada. Hoje 95% das mulheres enfrentam um ou mais sintomas associados à tensão pré-menstrual. Uma vez por mês toda mulher trabalha sentindo o corpo moído. Ausentar-se do trabalho nem pensar.
A cidadania vem sendo construída por rostos anônimos, porém vibrantes, são mulheres fazendo escolhas, tomando caminhos, encarando problemas e arriscando soluções. Mesmo que para tantas mulheres brasileiras a vida continue mais ou menos igual, o discurso começa a virar coro. A visão para a transformação social tem sido essencialmente da mulher para a mulher. Diminuir a desigualdade mantendo as diferenças, poder ser mulher, não ter rótulo, conseguir se movimentar em esferas públicas e privadas, eis a agenda das brasileiras de hoje.
Por nossa determinação haveremos de instituir essas modificações na sociedade. Nossa luta tem que continuar. Citando Frei Beto: A marca do batom é vermelha, cor das bandeiras libertárias e, também do sangue injustamente derramado pela opressão.
LYGIA LUMINA PUPATTO é secretária Especial da Mulher em Londrina





