São 23 horas e nos preparamos para um sono reparador. Justo quando o caminhão lixeiro vem recolher o conteúdo dos indefectíveis latões de lixo. E como eles são jogados na calçada, o barulho é difícil de ser suportado. Talvez os arremessadores se sintam no lugar dos craques do basquetebol. Meia-noite. O caminhão segue seu roteiro na rua Souza Naves, mas é hora de retardatário anunciar com buzinaço sua chegada ao estacionamento, onde há a impressão de que o ‘vigilante’ desaparecera. Ou seu sono é tão profundo graças à ingestão de bebida alcoólica. Quarenta minutos depois surge o ‘bafo de onça’, resmungando impropérios contra os notívagos. Um morador de edifício próximo aproveita a deixa e xinga o ‘pé-de-cana’, que se revolta contra o morador. Ao lado deste, outro morador entra no imbroglio. Mais cinco minutos e chegam três policiais tripulando uma perua cinza-amarela. Os educados representantes da lei querem reunir os envolvidos e levá-los à presença do delegado de plantão. Mas os moradores de outro prédio protestam. Mais ainda quando outro policial insinua que vai levar à delegacia uma mulher que, em frente, esperava pelo desfecho do conflito verbal e pelo descongestionamento do portão. ‘‘Mas é um atentado contra os bons costumes o que ela comete com esse sutiã pequeno e ao vento...’’, justificou o policial implacável.


E surge o ‘bafo de
onça’, resmungando
impropérios contra
os notívagos


Serenados os ânimos, parece que vou dormir. Mas no posto de gasolina próximo alguém desmancha uma cerquinha de corda e barras de ferro, que são jogadas à distância e ao chão. Duzentos metros além dá para contar: 16 barras de ferro. Amarradas em dois feixes são guardadas no interior do posto. Parece que agora dá para dormir. Mas é a vez de chegar a moto preta, pilotada por alguém que faz questão de demonstrar como perturbar o sossego alheio. Usa os quarteirões próximos só para exibir o acelerador. Aumenta a intensidade do tráfego aéreo e percebe-se o cuidado dos pilotos em reduzir a velocidade e o barulho das turbinas. Mas na rua é diferente. Agora mesmo um caminhão de feirante bate de frente contra kombi de padeiro. Não pretendo ver os acidentados. Começo a dormir novamente, mas é hora de levantar. Abro os olhos quando uma hóspede me acorda mostrando uma xícara de café e dizendo: ‘‘Espero que tenha dormido bem...’’

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