Uma noite em Bagdá
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de novembro de 1998
José Antonio Pedriali 
Take um. Soldados camuflados e com os rostos cobertos de graxa correm em ziguezague
pelas ruelas do centro velho de Bagdá. No meio da noite - noite oriental, repleta de estrelas que nem as luzes fluorescentes da cidade conseguem ofuscar - ouvem-se apenas o ruído amortecido da movimentação dos soldados e, de quando em vez, um latido, um miado. De repente, um som metálico: os soldados detêm-se bruscamente, gotículas de suor emanam de seus rostos, seus olhos vasculham na escuridão até encontrarem, debaixo do coturno do chefe, a origem de tudo - uma latinha de cerveja pisoteada sem querer. Alívio, olhares entrecruzados, um breve sinal, e o balé sinuoso pelas ruelas sinuosas é retomado.
Take dois. O Eufrates desliza, refletindo as luzes do céu, indiferente ao avanço dos soldados camuflados, indiferente a tudo, pois assim se comportou desde o início dos tempos, pois desde o início até o final dos tempos suas águas compartilharam e compartilharão da história do mundo. Nenhum rio é tão velho quanto o Eufrates, e se a velhice é sinônimo de sabedoria, este é o mais sábio de todos os rios - e o sábio contempla a história com serenidade, mesmo, e principalmente, nos períodos mais turbulentos, pois são as guerras, os desastres, o sofrimento os responsáveis pelo aperfeiçoamento do homem.
Take três. O comando militar - homens de elite de uma potência ocidental - trocam sinais, escalam os muros da fortaleza, embrenham-se em túneis, matam com seus punhais um vigia, matam dois, três, e com suas pistolas e fuzis e metralhadoras silenciosas matam dezenas.
Take quatro. E as estrelas do Oriente continuam a brilhar, as águas do Eufrates seguem seu curso, indiferentes, solenes, fazendo e contemplando a História.
Take cinco. No interior do palácio - os soldados já estão lá, e são 100 - portas são abertas com extrema cautela e, um a um, os quartos - e são 100 - são vasculhados. Em 89 deles (os outros 11 são ocupados pelas esposas e concubinas do homem procurado) os soldados executam sua missão: matar, sem dó, e de preferência provocando a maior dor possível, o tirano que ocupa aquele e outros duzentos e tantos palácios suntuosos. Em 89 quartos, lá estava o homem de rosto rechonchudo, cabelo de corte militar, lábios grossos, olhos negros, um metro e setenta e poucos, corpo robusto e... a vasta bigodeira. Oitenta e nove punhaladas, 89 mortes.
Take seis. As estrelas do Oriente vão perdendo o brilho. No horizonte, o vasto e infindável horizonte do deserto, uma leve coloração amarelada prenuncia o surgimento de mais um dia, uma mísera fração da Eternidade.
Take oito. Os soldados são surpreendidos em sua fuga, trocam tiros com os inimigos, explosões, gritos, helicópteros salvadores. Fim da missão. Êxito. Saudações amistosas, latinhas de cerveja (quente) são abertas, bigodinhos de espuma se formam sobre a pele dos soldados, ainda coberta de betume.
Take nove. Abaixo dos helicópteros, perfila-se a superfície monótona e escaldante do deserto, aqui e ali uma caravana de beduínos, um ou outro oásis entre miríades de torres de petróleo. Aos poucos, o mar, um porta-aviões, a manobra de pouso.
Take 10. Alinhados, os soldados vitoriosos são cumprimentados pelo comandante da missão, que ficara no porta-aviões. Seus rostos, agora limpos, mantêm-se rígidos como se exige de um soldado, mas não disfarçam a alegria pelo êxito da missão. E o comandante faz, então, a terrível pergunta:
áá- Quem dos senhores matou Saddam Hussein?á
E 89 dos 100 soldados respondem, com vigor:
á- Fui eu, senhor!
Takes 11 a 99. A confusão está formada, os soldados se xingam, brigam, o pandemônio toma conta do porta-aviões, o Pentágono entra em pânico, um comando de elite é enviado para eliminar todos aqueles rebeldes, a Sexta, Sétima e Oitava Frotas da Marinha norte-americana lutam entre si, mísseis Tomahawk são disparados para qualquer direção, os aiatolás do Irã se oferecem para mediar o conflito, o presidente dos Estados Unidos se refugia a bordo do Air Force One, a Rússia decreta mais uma moratória, suspende a produção de vodca e Yeltsin cancela as férias e volta a descansar já no dia seguinte, o Exército do Povo chinês entra em prontidão, o preço do petróleo dispara, o Brasil anuncia o Proba - geração de combustível através do fubá - Yasser Arafat leva seus mujadejins a Jerusalém e diz que nunca mais vai sair de lá, o Papa diz que perdeu a fé no homem e em Deus...
Epílogo. Esta crônica, de péssimo gosto e inspirada em boa parte numa das tantas produções mirabolantes de Hollywood, é dedicada aos srs. Bill Clinton e Tony Blair, que anunciaram que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha irão trabalhar juntos para derrubar o soberano do Iraque. Deixando de lado as discussões éticas sobre o tema, os dois países, para obter êxito em sua proposta, terão que pulverizar o Iraque - pois todo iraquiano que tenha o mínimo apreço à pele se veste e se parece como Saddam Hussein - e enviar matadores mundo a fora atrás de todo homem que se parecer, por mais remota seja a semelhança, com o bigodudo de Bagdá. Que se cuide o Sr. Farage Khury!
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha em Londrina


