A lua cheia que brilhava no céu de Londrina na quarta-feira passada – 9% maior e 20% mais brilhante do que em outras épocas do ano – parecia indicar que aquela não seria uma noite comum. Logo de cara, quem chegava ao Estádio do Café para ver o Cruzeiro enfrentar o Londrina pela Copa do Brasil, sentia no ar um cheiro diferente e, com certeza, não era de um outro tipo de carne nos tradicionais ‘‘espetinhos de gato’’. Devia ser o cheiro do inusitado, do imponderável ou, quem sabe, do ‘‘sobrenatural de Almeida’’, figura criada pelo imortal Nelson Rodrigues.
O ‘‘capetinha’’ Edilson, atacante do Cruzeiro e da seleção do – puááá – Felipão, que o diga. Bastou o sistema de som do estádio anunciar a escalação do time estrelado de Belo Horizonte para a, quase sempre silenciosa, torcida alviceleste saudá-lo em alto e bom som: ‘‘Edílson, vi...! Edilson, vi...! Talvez por isso, mas, também, pela marcação cerrada do mediano zagueiro/volante Dé, o endiabrado atacante não tenha conseguido mostrar o futebol que Deus lhe deu. Até pênalti o capetinha perdeu.
Antes, porém, que o jovem goleiro londrinense de pé-vermelho, registro de nascimento e certidão de batismo, Serginho, acertasse o canto onde o pênalti seria cobrado com pouca força pelo avante cruzeirense, poucos eram os torcedores londrinenses que acreditavam em uma improvável vitória do Tubarão. Até porque, para que isto acontecesse, seriam necessários dois milagres. O primeiro, claro, era o estelar time mineiro não jogar absolutamente nada. O segundo, mais difícil de acreditar ainda, seria o instável Londrina, que vinha de derrota para o União Bandeirante, jogar o mínimo necessário.
Segue o jogo. A torcida grita, com razão, o nome de Serginho. O Cruzeiro tenta impor seu jogo e os atletas londrinenses continuam sentindo a bola queimar-lhes os pés. Era um verdadeiro festival de chutões a partir da área londrinense. Quase no final do primeiro tempo o lateral titular da Seleção Argentina, Sorin, domina mal a bola e perde grande chance para o Cruzeiro abrir o placar e justificar, com bom futebol, a polpuda folha de pagamento – seriam R$ 2 milhões e tanto mensais contra os R$ 40 mil que recebem os operários da bola treinados pelo baiano Freitas Nascimento.
No inicio do segundo tempo, a primeira grande decepção da torcida londrinense. A cerveja Kaiser, quente e custando R$ 2,00 a garrafa, esgotou-se em todos os bares do estádio. Quanto ao jogo, permaneceu praticamente inalterado. O Cruzeiro não reeditava suas melhores atuações e o Londrina não se arriscava a tentar um resultado expressivo que lhe desse alguma vantagem para o jogo da volta. Mas, se existe uma verdade verdadeira no mundo do futebol, aquela que diz que quem não faz (gols), toma, esta materializou-se sob a lua cheia que iluminava Londrina.
Edilson perdeu um pênalti e Sorin perdeu um gol na cara de Serginho. Já o angolano Jonhson, que defendera o Londrina na famigerada campanha da Copa JH de triste memória, em 2000, achou um gol e não o desprezou, coincidentemente, na mesma área em que os cruzeirenses desperdiçaram as chances que tiveram na primeira etapa do jogo. Por sinal, frise-se, o ‘‘tapa’’ que o africano deu na bola, tirando-a do goleiro Jeferson, foi dos mais bonitos já registrados na história de um quarto de século do Estádio do Café, palco das mais recentes conquistas alviceleste.
Mas, o que isto tudo tem a ver com o direito de sonhar do Tubarão de Londrina, ex-capital mundial do café? Tem a ver com o fato de hoje à noite a equipe alviceleste disputar o jogo da volta contra o Cruzeiro, em pleno Mineirão, em Belo Horizonte. A lógica, neste caso, indica que, apesar da vantagem de o Londrina jogar pelo empate, ou ainda, poder perder por um gol de diferença, a tendência é que a equipe cruzeirense, que um dia foi Palestra Itália, vença a partida e siga em frente na Copa do Brasil.
Mas, como sonhar não custa nada e nos ajuda a viver melhor, hoje é dia de todos os corações alvicelestes, normalmente divididos com as cores alvinegras, alviverdes, tricolores, todas as cores deste Brasil multicolorido, unirem-se em torno de um sonho comum. Assim o fizeram os torcedores da modestíssima Associação Sportiva Arapiraquense – o ASA de Arapiraca-AL que, em sua casa venceu o Palmeiras, também ex-Palestra Itália, por 1 a 0 e, em pleno Parque Antarctica, em São Paulo, mesmo perdendo por 2 a 1, passou para a próxima fase da Copa do Brasil. Que assim seja Tubarão.
MÁRIO SÉRGIO FRAGOSO é jornalista em Londrina

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