Uma nobre utilidade: material de estudos
Os tanques ainda não estão completamente vedados e o sistema de exaustores ainda não está operando. O calor da primavera faz o formol evaporar rapidamente. O odor da substância é tão intenso que irrita as narinas e faz os olhos lacrimejarem. Há grandes macas por todos os lados. Sobre elas, membros de corpos dissecados cobertos com capas plásticas.
O cenário pode parecer assustador para um leigo. Para o veterinário Juarez Cezar, chefe do Departamento de Anatomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é um colírio. Como poucos, o professor sabe que enfim a universidade está próxima de contar com um espaço adequado para as aulas práticas de nove cursos da instituição.
A reforma começou em dezembro de 2000, enfrentou percalços, como uma longa greve de funcionários e professores durante as obras, mas prosperou. O resultado foi a transferência e o isolamento do laboratório, que ganhou até uma lajota especial, mais resistente e de fácil higienização. ''Antes os corpos ficavam improvisados em caixas d'água em uma área próxima do setor administrativo e das salas de aula. O cheiro de formol dominava o ambiente'', lembra Cezar.
Quando ficar pronto, com o sistema de exaustão em plena capacidade, o odor irá desaparecer. Os 25 novos tanques são revestidos, tem tampas de aço (de formato convexo) e serão impermeabilizados com uma resina. Os cadáveres estão mergulhados em 2 mil litros da solução conservante (90% de água e 10% de formol). Lá permaneceram intocáveis por um ano, prazo estabelecido como garantia para que, eventualmente, o corpo seja reclamado.
Depois que são retirados do tanque, os corpos inteiros são usados nas aulas de dissecação de Medicina e Biomedicina. O processo dura de seis meses a um ano. É nesta atividade que o cadáver inteiro é praticamente insubstituível. ''Há bonecos de silicone e programas de computador, mas o cadáver continua sendo essencial'', explica a professora e médica Janete Weizel Amaral.
Dissecados, os corpos são reduzidos e tornam-se instrumento de estudos por muito tempo. ''Dá para dizer que neste estado, o cadáver tem durabilidade infinita'', avalia Cezar. Após a dissecação e a redução, o corpo é manejado pelos estudantes de outros sete cursos: enfermagem, fisioterapia, farmácia, ciência do esporte, psicologia, odontologia e ciências biológicas.
Durante o manejamento é comum o rompimento de veias, músculos e tecido epitelial. Este material que se desprende é recolhido e colocado em um caixão doado pela Acesf, que também disponibiliza o translado. O sepultamento ocorre quando o volume enche o caixão. Órgãos e ossos são isolados ou montados para formar um esqueleto.
O último sepultamento deste tipo foi coletivo. Ocorreu sem testemunhas no cemitério do distrito de Lerroville. Eram mais três corpos completando seu ciclo útil à ciência.(L.F.M.)





