Uma natureza difícil - Ariosto Teixeira
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de outubro de 1998
Ariosto Teixeira 
A ausência do governador eleito de Minas Gerais, Itamar Franco, na reunião de Brasília dos seis governadores eleitos pela oposição na última semana deve ser intepretada como um sinal de que, ao contrário desses companheiros de viagem, o mineiro Itamar preferiu preservar o potencial de influência do Palácio da Liberdade no jogo político nacional. Ex-presidente da República, ele conhece as circunstâncias do governante brasileiro e em especial os fatores que condicionam e muitas vezes obrigam as decisões do presidente da República.
É um fato que Itamar venceu a luta eleitoral em Minas contra adversários difíceis, em oposição ao ceticismo militante dos notáveis de seu partido, e tendo liderado uma campanha de confronto com a política econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso. Suas primeiras declarações depois do segundo turno se puseram ainda em linha com o clima de palanque da campanha. Mas ao decidir enviar ao encontro de Lula e Brizola um simples representante, o deputado Zaire Rezende (PMDB-MG), Itamar revela que não pretende aderir a frentes políticas e que não se absterá de participar da negociação política da crise.
O deputado reeleito pelo PT de Minas Gerais, Paulo Delgado, vizinho de porta do ex-presidente em Juiz de Fora, deduziu das conversas que tiveram depois das eleições que ele desenvolveu uma visão correta da conjuntura e saberá se colocar como protagonista central no jogo de poder. O Itamar vislumbrado por Delgado, portanto, não cometeria a insensatez do isolamento administrativo e dá indicações de ter consciência de que atitudes desse porte consolidariam uma imagem indesejada dele. O ex-presidente parece, nesse aspecto, consciente dos danos que poderão causar a seus projetos a imagem do político provinciano e folclórico que o humorismo da TV Globo difundiu acriticamente País a fora.
O raciocíncio estratégico de Itamar também dá conta dos seus atuais limites. Seu partido, o PMDB, elegeu apenas nove deputados federais em Minas, dois a menos que em 1994, contra 14 eleitos pelo PSDB, oito do PFL e sete do PPB. Os aliados potenciais à esquerda não o tirariam da condição minoritária. O PT elegeu sete deputados, o PC do B um, e o PSB ninguém. A derrota do governador Antônio Britto no Rio Grande do Sul, contudo, deixou virtualmente o PMDB nas mãos de Itamar e da sempre insinuante liderança do também ex-presidente José Sarney, com o contraponto do governador eleito de Pernambuco Jarbas Vasconceslos, que é uma espécie de Britto nordestino.
Nesse cenário é que deve ser interpretada a intransigência do discurso pós-eleitoral de Itamar Franco. A alternativa da posição frontal contra o programa de ajuste do Governo seria imobilizadora, o que não combina com seu estilo. O verdadeiro jogo do poder futuro não passa por aí, embora deva ser reconfortante à alma nacionalista do ex-presidente o cerco reverencial de que está sendo alvo. Esse fato, todavia, dificilmente o seduzirá a liderar uma resistência política heróica e sem os votos necessários no Parlamento para influenciar decisivamente o processo decisório.
Conhecendo bem o espírito de seu antecessor, o presidente Fernando Henrique sabe certamente que ele não lhe proporcionará uma convivência fácil. O ex-presidente é uma natureza difícil, segundo a precisa definição do falecido colunista político Carlos Castelo Branco, alimentada numa política de campanário cujo ponto central se situa em Juiz de Fora, a cidade natal da sua carreira política. Parece apressada, por isso, a impressão de que nesta fase da vida esse ator político desconfiado e agreste se afastará da influência do chamado Grupo de Juiz de Fora, hoje restrito ao ex-assessor parlamentar e ex-ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, e ao ex-advogado geral da União, José de Castro.
Não se dissociará porque Itamar é ele o próprio grupo de Juiz de Fora, projeção da sua alma e da sua vida, ainda conforme Castelinho. Seria imprudente, contudo, negligenciar a competência desse político solitário, tenaz e ambicioso. A continuidade da presença de Itamar Franco na vida pública seguramente tornará a cena política nacional mais rica e movimentada nos próximos quatro anos.
- ARIOSTO TEIXEIRA é jornalista em São Paulo


