Gaudêncio Torquato
O País está com medo. E é um medo avassalador que ultrapassa os limites das tensões circunstanciais, porque as ondas de violência, espraiando-se sobre a intimidade dos lares, tomando de surpresa a expectativa alegre de turistas, matando pelas costas inocentes no conforto escuro dos cinemas, tornando comuns as chacinas em bares e salões de bairros periféricos, estão colocando os cidadãos de frente a um dos mais terríveis pesadelos do ser humano: a possibilidade de desaparecer imediatamente, antecipando um ciclo de vida, povoado por utopias, sonhos, muita esperança e renovada fé nos dias que virão. Ninguém está mais seguro, nem a velhinha de 72 anos, trancada sob sete chaves, que abre a porta quando bandidos vestidos de policiais garantem que estão procurando um assassino escondido no quintal da casa.
O processo de devastação de vidas e traumatização de almas, que está massacrando a população, deflagra um conjunto de sequelas sobre a vida social e política do país. A primeira consequência é o aumento do fosso entre o poder político e a sociedade, com evidentes danos para as nossas instituições. A descrença na capacidade do Estado em assegurar a defesa de seus cidadãos transforma-o em um ente fragilizado, e nessa condição, transfere para os governantes taxas crescentes de desprezo. Perde a Nação densidade cívica e o território ganha vastas extensões de barbárie. O Estado normativo, físico, territorial, distancia-se da Nação, Pátria espiritual, valorativa, simbólica, sentimental. E não existe coisa mais daninha para um país que o refluxo das taxas cívicas, que aparece quando os cidadãos perdem o orgulho pela terra em que nasceram, constituíram família e plantaram sementes de fé. Estiolam-se as vontades, quebram-se os compromissos, rompem-se os vínculos com as obrigações para com o Estado, esmaece a força telúrica que liga as pessoas ao chão amado. Como ratos amedrontados, famílias procuram novos abrigos.
A política, sob todos os ângulos, tem sua substância contaminada pelo vírus da desconfiança. Por essa razão, há de se supor que o processo eleitoral será inevitalmente influenciado pelo humor coletivo. No próximo ano, o Brasil realizará a ‘‘eleição da raiva’’, quando a emoção nacional estará disparando sua arma contra tudo e todos que considerar indesejáveis, infiéis, corruptos ou traidores dos sentimentos sociais.
Sem ânimo, fé e crença, um povo nada mais é que um amontoado de dândis perambulando por um território deserto. É um perigo. Qualquer comandante oportunista, um Brancaleone de plantão, pode pegar um fuzil velho, uma espingarda ou mesmo uma bengala (para dizer que não interessa a arma, se não o gesto, a liturgia, o sinal), e começar a organizar o ‘‘povo de Deus’’, conduzindo-o à Terra de Canaã. Já tem gente querendo vestir o manto diáfano de Jesus. (Pois o governador carioca Anthony Garotinho não disse que vai correr o País, empunhando a Bíblia numa cruzada evangélica de fé?).
Aliás, o desengano e o grito rouco das ruas em relação à inação dos governantes, à inércia do Estado, à materialidade da política, já começam a se fazer ouvir nas manifestações crescentes de cidadãos ou nas multidões religiosas que buscam nos Céus a luz para a escuridão da terra. O crescimento da religiosidade tem um quê de resposta à dificuldade dos governantes para equacionar a crise social.
O País está numa encruzilhada. Ou as autoridades se convencem de que chegou o momento de dar um basta à escalada da violência, sob todos os aspectos, ou podem ir se acostumando com a idéia de que as rédeas do Estado degenerado, enfraquecido, inerte, serão manobradas por mãos de turbas, bandidos e vândalos, que passarão a exercer um poder invisível capaz de se fazer cada vez mais presente em todos os momentos e em todos os recintos das famílias.
Nesse momento, que não está muito longe, não vai adiantar exibir o orgulho de sermos a nona ou a décima economia do mundo, possuirmos algumas das mais belas paisagens naturais do Planeta ou a extensão territorial de um continente. O medo do nosso povo será sempre maior que as coisas boas. E um povo com medo nada mais que um corpo atrofiado, um pedaço de terra infértil, uma nação sem alma.

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