Uma nação de 'laranjas'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de dezembro de 2001
Gilberto Jordão 
A ciência nos provou que viver sem a vitamina C que está contida na laranja não é possível. A laranja é um fruto comestível e apresenta uma casca amarelada ou avermelhada, quando madura. Além de seu suco natural, a laranja pode ser utilizada para a produção de pectina, óleos essenciais, rações, etc.
Historicamente, existe o agente laranja, herbicida utilizado durante a guerra do Vietnã para fins militares, pois era caracterizado como sendo altamente destrutivo. Seu nome advém do fato de que, durante a guerra, esses herbicidas eram colocados em tambores alaranjados para se tornarem diferentes dos tambores de napalm (produtos empregados na preparação da essência gelificada destinada à fabricação de bombas incendiárias).
Curiosamente, transformou-se, como é típico dos brasileiros, em uma expressão muito usada e praticada pela classe política e empresarial. Nas eleições em todos os níveis, a população é induzida a exercer seu ato de cidadão, votar. Pede-se para termos sentimentos, pois tal sentimento acompanha sempre a expressão da cidadania, ou seja, o exercício de nossos direitos.
Atualmente, faz-se uma avaliação do povo brasileiro como incapaz de discernimento político, como apático, incompetente, corruptível, enganável. Mas essa é uma visão míope e de má-fé ou incapacidade de percepção daqueles que fazem o julgamento.
Está claro que uma população que estava acostumada com a repressão não teria condições de compartilhar com os mecanismos formais de participação exigido pela parafernália dos sistemas de representação.
O que os eleitores sempre usaram, desde o Império e da Primeira República, foi a racionalidade na hora de votar. Ela está fundamentada nas propostas e promessas dos políticos. Os eleitores acreditam em seus candidatos, por isso votam neles. Os políticos sempre usaram eleitores como uma massa de manobra para conquistar seus objetivos.
Fatos pitorescos, como acontecem hoje, ocorreram no passado. Em 1904, os políticos de oposição jogaram a população contra o governo. Foi a chamada Revolta da Vacina. Os políticos que faziam oposição apresentaram aspectos moralistas. A vacina era aplicada no braço com uma lanceta. A oposição espalhou que os médicos visitavam as casas das famílias e aplicavam nas coxas e/ou nas nádegas das mulheres e filhas. Isso era uma violação à honra do chefe da casa. O Estado não tinha esse direito, afirmavam os opositores.
Após a proclamação da República, em 1889, o povo pôde votar. Mas como se davam as eleições? Que tipo de cidadão exercia o seu direito político? Essas questões preocupavam os governantes de outrora. As eleições sempre foram tumultuadas. Às vezes, proporcionavam espetáculos satíricos. No período, pós 1889, a formação das mesas eleitorais dependia da aclamação popular. Nos dias de hoje, a chamada convenção partidária.
Aparentemente, era um procedimento muito democrático, mas ganhava o que gritava mais alto, ou seja, quem fazia mais barulho formava as mesas e as mesas faziam as eleições de acordo com os interesses individuais das partes. A pancadaria e a violência decidiam as eleições. Tudo isso dentro das igrejas. Por precaução, as imagens eram retiradas e guardadas.
Surgiram vários especialistas em burlar os resultados das votações. Havia uma forma que era típica, a chamada cabalista. Na hora de votar, os referidos cabalistas tinham que provar sua identidade. Aí entrava um outro personagem, o ''fósforo''. Se o eleitor inscrito não aparecesse para votar, aparecia o fósforo, ou seja, uma pessoa que se fazia passar pelo eleitor verdadeiro. Bem-falante, ensaiado para falar, o fósforo tentava convencer a mesa eleitoral de que era o eleitor legítimo. O bom fósforo votava em várias mesas em locais diferentes. Havia situações atípicas e cômicas. Às vezes apareciam vários fósforos para representar um único votante. Votava o que melhor interpretasse. Era uma comédia circense.
Notamos, hoje, que o circo continua. Geralmente ganham os políticos que mais mentem, prometem, jogam sujo e usam de pressão psicológica. Depois de eleitos, todos se esquecem de suas promessas.
O senhor presidente com sua mão espalmada, citando as cinco estratégias para melhorar o Brasil. O governador Jaime Lerner afirmando e implorando aos professores que votassem nele, pois era a solução para a educação. Que decepção! O prefeito de Maringá, José Cláudio, prometera, assim que assumisse, acabar com o monopólio do transporte coletivo. Afirmou também que a prefeitura daria remédio de graça e pagaria consultas médicas para os menos favorecidos e olha que o homem é do PT. Quem diria, hem! O PT fazendo bravatas.
É a tal história! Quem grita mais alto e fala muito, sempre sai ganhando. Já é uma tradição cultural dos políticos brasileiros. A conclusão a que se chega é que somos os verdadeiros ''laranjas'' desse sistema político perverso.
- GILBERTO JORDÃO é professor universitário em Maringá


