Uma mulher na Presidência da Argentina
Se os indicativos estão certos, a Argentina elege hoje, em primeiro turno, Cristina Fernandez presidente da República. Será a segunda mulher a governar o vizinho país, depois de Maria Estela Martinez, que ocupou o poder de julho de 1974 a março de 1976. Mulher do atual presidente Nestor Kirchner, a temperamental senadora peronista social-democrata, de 54 anos, tem quase metade das intenções de votos do eleitorado, segundo a pesquisa, e não enfrenta rival à altura. A única adversária é outra mulher, Elisa Carrió, de 50 anos, que se apresenta como uma alternativa centrista e moderada, e inimiga da aliança da Argentina com o presidente da Venezuela Hugo Chavez.
A primeira-dama forma com o marido uma sociedade política que manipula o poder com estilo princepesco, ou seja, não consulta ninguém a não ser um círculo de colaboradores íntimos. Mas virtudes ela deve ter, ou os argentinos não a quereriam. A candidata da oposição, sem muita estrutura partidária desde que abandonou a União Cívica Radical acusa o Governo Kirchner de autoritário. No entanto os argentinos experimentaram nos últimos cinco anos uma melhoria nos padrões de vida, depois de quase metade da população - que soma no total 40 milhões - haver experimentado a pobreza. Também desenvolveram-se a indústria, a agricultura, o turismo e o comércio, com um crescimento da economia de quase 45%.
Um terço da população ainda vive em dificuldade, porque ganha pouco, mas o país melhorou as exportações de cereais e reforçou sua economia. Fazendo uma comparação com o Brasil se verá que o padrão dos argentinos pobres é mais elevado que o dos pobres brasileiros. Observando as imagens do povo vizinho, mostradas na televisão, se verá os cidadãos com perfil mais civilizado, com melhor cultura e melhor vestimenta.
Buenos Aires é uma cidade sofisticada, mantendo a tradicional linhagem européia (tem grande descendência de italianos), e como o povo se alimenta muito de carne bovina - seu prato fundamental - é melhor nutrido e mais saudável. O interior tem em sua população mais carente os descendentes de indígenas. As comparações não têm o sentido de denegrir os patrícios brasileiros, mas esta é uma realidade inconteste, até pelas origens culturais.
O enfoque que se dá à eleição na Argentina é pertinente, primeiro pelo fenômeno da tendência eleitoral em favor dessa mulher, esposa do presidente e, portanto, sinalizando que o povo também aprova a administração Kirchner. Segundo, porque Brasil e Argentina têm entre si negócios bilaterais expressivos, além de uma sólida relação diplomática. Não fora o futebol... Mas também nessa rivalidade há um inevitável reconhecimento mútuo. Muita coisa que interessa à Argentina interessa ao Brasil, e vice-versa. O presidente Lula e a diplomacia brasileira passarão, muito breve, a negociar com um novo perfil de governante e, certamente, com um novo tom de diálogo.





