Uma moeda única para o Mercosul?
Antonio Delfim Netto
De passagem pelo Brasil para uma séria de conferências patrocinadas pela Fundação Getúlio Vargas e pelo jornal ‘‘Valor Econômico’’, o professor Robert Mundell, economista canadense detentor do Prêmio Nobel, voltou a tratar de um tema de sua predileção: a substituição das moedas nacionais por moeda única dentro dos blocos econômicos.
Mundell teve uma destacada atuação na construção do euro, que por enquanto é uma simples moeda escritural mas que dentro em breve se espera venha a substituir as moedas dos países da Comunidade Econômica Européia.
Em que pesem as objeções oferecidas por alguns países da Comunidade – como é o caso da Inglaterra, que se opõe à idéia – admite-se que em 2002 toda a Europa estará regida por uma só política monetária e operando com a moeda única – o euro.
A adoção da moeda única seria o passo final de um processo iniciado há mais de quarenta anos, no qual um grupo inicialmente restrito de países europeus passou a agir coordenadamente na aplicação das políticas fiscal e industrial.
Esse processo foi sendo conduzido lentamente, com avanços e recuos, incorporando mais países, de sorte que hoje praticamente todas as nações da Europa Ocidental dele participam, comprometendo-se com os princípios de uma política fiscal única, no documento que ficou conhecido como Tratado de Maastrichi.
O que se viu, portanto, é que essa reunião em torno de princípios comuns da política econômica exigiu longuíssimos anos de preparação, discussões e negociações, envolvendo diferentes governos em diferentes estágios do processo.
É dentro de um contexto dessa natureza que devemos avaliar as manifestações do professor Mundell em favor da adoção do dólar como moeda única entre os países do Mercosul. Por enquanto essa história se resume – como qualificou o professor Afonso Celso Pastore – àquele tipo de conversa ‘‘entre dois senhores de terno cinza, nos finais de expediente: um comenta com o outro que enfim a adoção da moeda única é uma fatalidade e o outro responde que é óbvio que não há condições para unificar...’’ E por enquanto fica por isso mesmo, porque não há estudos sérios a respeito...
Na verdade não surgiram argumentos sólidos a valor da dolarização ou que dêem respaldo a um processo de criação de uma moeda única para os países do Mercosul. O exemplo da Argentina, citado pelo professor Mundell, não é nada edificante. Apesar de ser um caminho aparentemente sem volta, o processo de dolarização não se completou naquele país.
O atrelamento do peso argentino ao dólar ajudou o processo de estabilização, mas a que custo? Um enorme desemprego e após oito anos de sacrifícios a economia argentina voltou a entrar em recessão. E o país perdeu a capacidade de exercitar uma política monetária autônoma.
A dolarização, portanto, não oferece nenhuma vantagem real para nossas economias. Quando à moeda única, é algo que pode ser estudado e discutido para uma projeção futura, ciente todos nós que depende de um cuidadoso processo de coordenação das políticas fiscal e cambial dos países envolvidos.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão Permanente de Finanças e Tributação
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