As repercussões negativas pelo descumprimento da promessa do presidente Lula de não elevar impostos face à suspensão da CPMF não causam temores no Palácio do Planalto, embora a temperatura política tenha subido por estes dias, depois da elevação imediata do Imposto sobre Operações Financeiras, o IOF. Como o ministro Paulo Bernardo declarou, ‘‘nós vamos atravessar o deserto’’, significando a certeza do Governo de que - parodiando o dito popular - a caravana governamental vai passando, triunfante e indiferente ao clamor da população. Soa como uma luta do Governo contra o povo. Se os senadores, pelo voto da maioria, lavraram um tento ao desaprovar a continuidade da CMPF, certo é que o Governo não se intimida nem com as oposições e nem com a opinião pública.
  A segurança de ‘‘atravessar o de-serto’’ é tamanha que não se passou um dia sequer do novo ano e o Governo já chegou com um substituto pronto para atenuar a queda da arrecadação. Percebe-se que tudo já estava articulado desde que começaram a aparecer os sinais do que aconteceria no Senado, e comprova-se assim que o discurso presidencial (de que não haveria elevação tributária) era de conteúdo falso. Os parlamentares que votaram o acordo da Desvinculação de Receitas da União (concedendo vantagens ao Governo) em troca de não haver pacote substituindo a CPMF (mesmo que em parte), sentiram-se naturalmente traídos. Uma coisa é o ministro Paulo Bernardo declarar que ‘‘está dentro do marco democrático a oposição criar dificuldades’’, e outra é a legítima reação, das oposições e do povo, pela atitude governamental de não cumprir um acordo e uma promessa pública. Porque o que houve foi uma quebra da palavra de Lula. Isto solapa a já pouca credibilidade que restava à administração federal.
  Será difícil, doravante, acreditar no que o presidente vier a declarar. A verdade, irretocável e indisfarçável, é que Lula mentiu para o povo, e uma mentira dessa natureza partida do chefe supremo da República é muito grave. Nos Estados Unidos, o presidente Clinton quase foi apeado do poder por mentir, no ‘‘caso Mônica Lewinski’’, e só se safou perante o Congresso e as Cortes porque admitiu publicamente seu deslise.
  A oposição agora ameaça retaliar o Planalto e dificultar a aprovação de outras propostas de interesse palaciano. Se isto pode gerar um atraso na discussão de temas relevantes, ensejando o risco de 2008 converter-se em mais um ano perdido, o golpe governamental desfechado pelo aumento do IOF - que retirará do contribuinte R$ 10 bilhões no correr do ano - foi pesado demais. Porque representou uma quebra de palavra empenhada, inaceitável tratando-se do presidente da República e uma afronta especialmente ao Senado e por extensão ao povo.

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