Uma lupa sobre as faixas etárias
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de agosto de 2002
Gaudêncio Torquato 
Vistas com os olhos da estatística, as densidades eleitorais atestam apenas o crescimento populacional das faixas etárias. Colocadas sob a lupa sociológica, expressam a dinâmica das mudanças sociais e a teia de interesses de determinados grupamentos, principalmente quando estes são analisados à luz de suas referências básicas. Nesse sentido, os últimos números exibidos pelo TSE constituem um interessante painel dos sentimentos e expectativas da sociedade brasileira. Mostram, por exemplo, que o País, de 1998 para 2002, caminhou uns bons passos na trilha da racionalidade. Isso porque o maior aumento no colégio eleitoral de 115 milhões de eleitores ocorreu no contingente entre 45 a 59 anos, que soma, atualmente, quase 23 milhões e meio de eleitores, 2.786.494 a mais do que havia em 1998.
Neste segmento está encravada a maior base do edifício da racionalidade, se considerarmos que abriga os profissionais que ou atingiram a plenitude de suas carreiras ou estão bem localizados no ranking de suas profissões. Trata-se do tronco mais forte da maturidade política. Professores, executivos, pequenos e médios produtores, profissionais liberais das mais variadas áreas do conhecimento, enfim, os pólos formadores de opinião constituem os carros-chefes que lideram o pensamento racional do País. Quando se sabe que o balão da opinião pública depende fortemente dos ventos soprados pelos grupamentos mais atentos ao cenário social e político, é de se concluir que seu filtro está influenciando de maneira significativa o processo de decisão eleitoral em curso.
A filtragem se impregna dos valores do contingente, entre os quais o poder crítico, a pertinência de pontos de vista, o inconformismo e a intolerância ante as distorções e desvios da vida institucional, a capacidade de fazer distinções entre propostas de candidatos e a preocupação de não se deixar levar pela excessiva camada de cosmética que desfigura os atores políticos.
Trata-se de um conjunto de referências que sinaliza a necessidade de mudanças no modelo econômico. A idéia básica que alimenta o pensamento dessa população é a de que a estabilidade da moeda já deu o que tinha de dar, faltando ao País eixos diferentes, trilhas ainda não caminhadas e novas motivações para o resgate da auto-estima dos cidadãos. A angústia de se caminhar sem sair do lugar percorre os sentimentos desse grupo.
Nesse sentido, José Serra representaria a continuidade, Lula, uma mudança muito drástica e de efeitos desconhecidos, e Ciro, por enquanto, seria o ator a promover a mudança sem virar abruptamente a mesa.
Outra variante com capacidade de força decisória, também pinçada da estatística eleitoral do TSE, está no contingente entre 18 a 24 anos, o chamado poder jovem, que recebeu o segundo maior aumento de votos nos últimos quatro anos, precisamente 2.716.403. Significa dizer que esse núcleo, com mais de 22 milhões de eleitores, simboliza um vetor de força sem compromissos com o status quo. Nesse território, a emoção ganha da razão. A decisão por impulso, a impetuosidade, a locução mais aberta e improvisada, a forma apressada e horizontal de definir conceitos e pontos de vista, maior distanciamento do cenário institucional e menos apego à ordem são alguns dos eixos que movem esse segmento. Deriva daí uma forte inclinação para o jogo de paixões e para a tendência de se privilegiar perfis e atores que se encaixem na moldura emotiva.
Lula, nesse caso, representaria a banda maior dos sentimentos dessa faixa etária, por sinalizar maior propensão para a ruptura, mas Ciro, pelo estilo tonitruante do perfil, também marca forte presença. Serra não oferece grandes atrativos ao contingente.
A faixa etária com maior número de eleitores é a de 25 a 34 anos, com quase 28 milhões de eleitores. Teve pequeno crescimento da última eleição presidencial. Se considerarmos que essa é a faixa que abriga imensos núcleos à procura de melhores oportunidades, aí incluídas as possibilidades de um novo emprego, aperfeiçoamento profissional, melhoria salarial, redefinição de carreira, mudança no estado civil, organização da vida social, pode-se inferir que ela é, por excelência, o território da contrariedade. Se o jovem faz crítica por crítica, o cidadão em fase do amadurecimento profissional faz crítica por convicção. Trata-se de uma questão epidérmica. O sofrimento, a angústia, as carências e as expectativas ingressam no sistema de filtros, sedimentando uma decisão que seguramente vai apontar preferência por atores mais comprometidos com o bem estar e a segurança do segmento.
Lula ocupa aqui os maiores espaços.
A radiografia eleitoral do país mostra, ainda, que o Sudeste (43,98%) e o Sul (15,47%) diminuíram um pouquinho a sua participação no cômputo geral, tendo o Nordeste (26,91%), o Centro-Oeste (6,96%) e o Norte (6,62%) ganho pequenas fatias. Houve um aumento das mulheres candidatas, tanto para a Câmara (12,88%) como para as Assembléias (14,64%), ganhando as primeiras 2.58% e as segundas 1.63% em relação ao pleito de 98. As mulheres, aliás, constituem alvo principal da campanha. Seus valores e referências detêm um poder de força que decidem os rumos de um pleito. Mas isso é história para outro capítulo.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político
[email protected]


