Ao propor um projeto de lei criando a Semana da Paz, no início do ano, não imaginávamos o que estamos presenciando no mundo hoje. O esforço pela paz ganhou a dimensão da urgência, no sentido de preservar a vida humana, seja contra o terrorismo de grupos, seja contra o terrorismo oficial de Estado, seja contra o absurdo da exclusão social.
É preciso despertar a sensibilidade das pessoas não só para a violência que está estampada nas capas dos jornais e na tela da televisão, como também para a exclusão social, para a não-garantia dos direitos constitucionais básicos: civis, sociais e religiosos.
Buscar alternativas para a paz implica analisarmos a violência e suas causas. A cultura política do Brasil, desde o período colonial, traz a violência em seu interior. Historicamente, as políticas públicas não conseguiram a inclusão dos pobres e o Estado até hoje não conseguiu garantir de fato os direitos civis, sociais e econômicos.
A violência liga-se à perda de perspectiva de qualidade de vida e um exemplo disso presenciamos cotidianamente nas favelas. Quando os jovens das regiões mais pobres deparam com a possibilidade de ganhar muito mais participando do tráfico de drogas do que estudando, por exemplo, para se tornar um professor ou um técnico, por que caminho irão optar? Por isso, a segurança da coletividade não é questão apenas de polícia mais eficaz, mas de resgatar valores e direitos básicos da sociedade.
Muitas vezes foi questionado se uma iniciativa como a Semana da Paz em Londrina mudaria alguma coisa na mente e nas ações das pessoas. Sem dúvida! Somente propondo alternativas, reflexões, ações e dinâmicas pela paz, disseminando valores como esperança e solidariedade, é que podemos vislumbrar um caminho diferente do que o que está sendo trilhado.
Hoje em todo o País surgem ações em favor da paz, principalmente na iminência de uma guerra. E são ações pequenas, que nascem muitas vezes de iniciativas isoladas, que estão atingindo os objetivos. Iniciativas que não são divulgadas, não saem nos jornais, nem na televisão e que vão construindo uma nova mentalidade.
Durante esta semana, a palavra paz esteve presente nas escolas, nas exposições de trabalhos das crianças, nas igrejas de várias religiões, nos locais públicos, nos debates, palestras e mesas-redondas realizadas em diversos pontos da cidade, nas caminhadas, na distribuição de mudas de árvores frutíferas, nas apresentações musicais e artísticas, na imprensa e no coração de cada cidadão que parou pelo menos um segundo para refletir sobre o momento.
Gostaria de citar, sem desmerecer quaisquer outras iniciativas, o movimento hip-hop, que surgiu de jovens das favelas e é cada vez mais crescente. É um movimento que fala da sua própria realidade, reflete sobre ela e busca saída através da música, da dança e do grafite. As ONGs e organizações civis também vêm construindo uma identidade cultural, de resgate da cidadania e de democratização das instituições.
Educar para a paz, possibilitar a expressão e reforçar o lazer, criando espaços de convivência (abro parênteses para a brilhante iniciativa do Projeto Amigos do Zerão, em Londrina, ao qual estivemos em parceria durante esta semana) são caminhos para quebrarmos a intolerância, a indiferença, a rejeição, a hostilidade e a exclusão.
A primeira Semana da Paz em Londrina pode ter sido uma gota no oceano, mas cumpre seu objetivo na medida em que lança uma semente para reflexão sobre o nosso papel diante da violência e o nosso dever de propor alternativas. A próxima Semana da Paz, que será realizada no ano que vem, neste mesmo período, tenho certeza tocará ainda mais o coração das pessoas.
- ANDRÉ VARGAS é vereador pelo PT e autor do projeto que criou a Semana da Paz em Londrina

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