No início do século passado o Japão vivia época de grande pobreza. Saído de uma guerra com a Rússia, passava por um processo interno de migração de tropas e uma certa desagregação familiar, em face desses deslocamentos. Anseios de vir para as terras desconhecidas da América estavam presentes, embora isso se afigurasse como uma intrépida aventura, algo comparável a um cidadão do mundo, hoje, que resolvesse mudar-se para outro planeta. Não há exagero nessa comparação, porque o meio de transporte era o navio, embarcação que não tinha tantos recursos de segurança como hoje para uma viagem tão longa e por mares perigosos. Muitos pensavam em vir, ganhar dinheiro e retornar, mas a maioria sabia que tão corajosa decisão seria uma separação definitiva dos familiares e amigos e um caminho sem volta, ou ao menos sem volta a curto prazo. Foi em 1908 que o primeiro navio de imigrantes japoneses, o ''Kasato Maru'', deslocou-se para o Brasil e aqui chegou em 18 de junho, trazendo entre seus passageiros uma menina de 1 ano e 8 meses Tomi Nakagawa, hoje com 98 anos e única pessoa viva dos 781 passageiros da célebre expedição.
Tomi, que reside em Londrina e ainda está cheia de vida, recebeu ontem aniversário da chegada ao porto de Santos daquele navio o título de Cidadã Honorária do Paraná, em solenidade transferida da Assembléia Legislativa para a sede da Associação Cultural e Esportiva de Londrina. Uma merecida homenagem, pelo significado histórico, pela história dessa pioneira, primeiro trabalhando nas lavouras do Estado de São Paulo e depois no Paraná. Tomi Nakagawa, nascida com o sobrenome Nishimura e viúva de Massaji Nakagawa, mãe de 8 filhos e tendo 30 netos, 38 bisnetos e um tataraneto é um exemplo de vida e de bom humor e deixa ensinamentos como o de que ''melhor do que falar mal dos outros é cantar'' palavras dessa mulher ainda lúcida, ao ser entrevistada por este jornal na véspera do recebimento do título. Ensinamento que recebeu dos pais, como revela, e que marcam uma filosofia dos anciãos japoneses.
A homenagem é também uma reverência às mulheres pioneiras da colonização de Londrina, não muito lembradas pelos historiadores embora o papel fundamental que exerceram, como mães, filhas, esposas. Elas tão heróicas quanto os varões, porque também embrenhadas no sertão e enfrentando as vicissitudes do meio. E mais que isso a dor da ausência de parentes de terras brasileiras ou de além-mar que ficaram e, na maioria dos casos, nunca mais foram vistos.

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