As duas últimas safras (verão 99/2000 e inverno 2000) foram marcadas por situações climáticas adversas. A seca e as geadas acabaram interferindo no ciclo de bons resultados que o agricultor vinha conquistando nos últimos anos. A estiagem foi a pior desde 1986, enquanto que a força das geadas só pode ser comparada com o inverno rigoroso de 1975.
Mas quem é agricultor sabe que a atividade está sujeita aos efeitos do clima. Por isso, a Cooperativa Coamo orientou os seus cooperados a optarem pelo seguro agrícola. A participação do governo federal no crédito rural é cada vez menor e as cooperativas e demais empresas do setor, que estão sendo obrigadas a assumir essa responsabilidade, não têm condições de arcar com os prejuízos em casos de frustração de safras. Já tivemos R$ 54 bilhões aplicados no crédito rural e hoje o governo anuncia um volume de recursos com pouco mais de 20% desse total. E ainda não sabemos, exatamente, qual o volume de recursos que chegará nas mãos dos produtores.
Vemos com tristeza essa situação, porque na Europa, por exemplo, o governo é muito atento à proteção da agricultura. Com altos subsídios, o produtor europeu não tem perdas significativas, além de contar com uma estrutura melhor em termos de seguro, apoio de preços e empréstimos.
Esse abandono do setor agrícola pelo governo brasileiro é realmente lamentável. Por causa da proteção internacional, estamos enfrentando grandes problemas com as culturas da soja, do algodão e do milho. Lá fora, o subsídio é muito grande e a expansão de área também, enquanto no Brasil não há expansão. Pelo contrário, existe uma queda de plantio e nenhum apoio, dando impressão de preferência à importação de grãos.
E o governo também não está tomando providências para proteção da indústria nacional. Está havendo grandes volumes de exportação de grãos de soja, em detrimento ao produto industrializado. A indústria nacional tem déficit e em consequência disso já fechou muitas indústrias e se não houver providências, o Brasil será um fornecedor de matéria-prima, o que é grave. E isto causará muito desemprego e perda de valor agregado no produto industrializado.
A agricultura se vê numa situação bastante difícil. Sem apoio governamental sabemos que é praticamente impossível competir com os outros países. Como é o caso da própria Argentina, em relação ao Mercosul, que protege os seus agricultores e o seu mercado de um modo geral. Enquanto nós estamos à mercê do que der e vier, uma vez que as medidas de proteção ao agricultor brasileiro não existem.
A chegada da Companhia de Seguros do Estado de São Paulo (Cosesp) abriu as portas para o seguro agrícola na região. Incentivamos e orientamos os nossos cooperados para optarem pelo seguro, mas com a frustração da safra de inverno são muitas as incertezas. A falta de apoio do governo – que ainda não se decidiu pela liberação dos recursos para o fundo de seguro rural, pode colocar em risco o pagamento das indenizações.
Essa indecisão ajuda a engrossar ainda mais o caldo do descaso. Ainda não se tem uma solução e a nossa preocupação é muito grande, porque acabamos ficando numa posição delicada entre o agricultor e a seguradora. Incentivamos o seguro como forma de garantia para o meio rural, os produtores fizeram a opção e agora assistimos essa incerteza na definição para o pagamento das indenizações.
A Cosesp deu todas as garantias aos nossos cooperados, inclusive na pessoa do próprio presidente da companhia, que esteve visitando a Coamo. Disseram que não haveria nenhum problema no caso de frustração, mas ainda aguardamos informações sobre os sinistros para tranquilizar os produtores.
A lentidão para tomar medidas de apoio ao setor rural é o que mais preocupa. Na verdade, tudo ainda está pendente. Temos normas de prorrogações, mas nada ainda no que diz respeito aos débitos dos agricultores nas cooperativas. O governo poderia alocar recursos com taxas de juros mais favoráveis em relação ao mercado para que essas prorrogações pudessem ser oferecidas aos produtores por dois a três anos. Lembrando que o volume de recursos necessário para essa medida é da ordem de R$ 210 milhões.
Em julho, quando ocorreram as geadas que dizimaram as lavouras de inverno do Paraná, o ministro da Agricultura Marcus Vinicius Pratini de Morais esteve em nossa região e viu de perto todos os problemas, chegando a apresentar soluções imediatas. Mas hoje vemos que pouca coisa aconteceu. Já estamos há mais de dois meses da ocorrência das geadas e numa situação de profundo desagrado, porque precisamos dar satisfação aos nossos cooperados sobre o que está acontecendo. E na verdade, as gestões diretas com participação das nossas lideranças da Ocepar, OCB, Faep e governo do Estado, não têm surtido efeito.
Desta forma, ficamos numa situação bastante difícil em relação ao nosso cooperado e sem uma solução por parte de quem deveria resolver a questão. Sendo assim, esperamos que as seguradoras que estão chegando no mercado analisem melhor as reais condições de atendimento ao produtor, em casos de frustração de safra. É importante que agricultores criem uma cultura de seguro agrícola. Mas é fundamental que o produtor realmente tenha segurança – e dos dois lados: cobertura no momento da frustração e garantia de pagamento das indenizações.
Com relação ao plantio da safra de verão 2000/2001, ainda estamos em busca de recursos para atender o nosso quadro social. O ano se projeta com clima bastante regular e temos tudo para fazer um grande plantio. A expectativa é de que os cooperados colham uma grande produção nesta safra, capaz de recuperar a capitalização. Os preços ainda não são os melhores, mas a perspectiva é de que eles sejam bons com comercialização favorável no momento da colheita.
Os custos de produção estão elevados, mas a Coamo tem orientado o seu quadro social a utilizar melhor a tecnologia para obter maior produtividade e renda. Esperamos que rapidamente todos os nossos cooperados tenham as suas terras bem corrigidas e conduzidas, do ponto de vista de novas tecnologias, para que possam ter alta produtividade e melhor resultado.
- JOSÉ AROLDO GALLASSINI é engenheiro agrônomo, presidente da Coamo e vice-presidente da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar)