Como a oposição venezuelana comemorou o fato de o governo não ter obtido os dois terços da Câmara, Hugo Chávez ironizou a celebração não percebendo que os independentes do regime faziam com aquele gesto um ato de autocrítica por causa da deserção havida no pleito anterior. Para o Brasil é importante essa resistência num momento em que há todas as condições para reproduzir-se aqui a experiência mexicana do PRI, Partido Revolucionário Institucional, agora em cima de uma base aliada, que se revigorará com sua possível e até esperada vitória, depois da ablução batismal de 2005 com o mensalão.
  O mensalão é a um só tempo o sentido mais pragmático da busca do poder, e que jogou no lixo a bandeira ética do Partido dos Trabalhadores, que afinal era posta como o diferencial das demais agremiações, e que revelou a carência de oposição que não teve peito para inflingir ao governo o desgaste de um processo de impeachment, aceitando o monocórdio ‘‘nada vi’’ e ‘‘nada sei’’ do presidente aturdido ante as ações desenvoltas da Casa Civil como José Dirceu. E não agiu atemorizada com os níveis de popularidade do presidente Lula, tal qual a oposição venezuelana, assombrada com a força do chavismo, cada vez mais ousada, ao desistir da disputa, encontrando nessa forma de niilismo uma afirmação.
  Há alguma semelhança nos riscos de um monolitismo suprapartidário, que impediria aqui o exercício do contraditório e exporia as instituições, como se vê na paranoia contra a mídia, a recuos históricos como os do regime militar. Por isso mesmo é indispensável fazer o possível para que neste fim de semana possamos, nas urnas, comemorar algum avanço no que diz respeito à oposição até aqui muito comprometida com a louvação que José Serra faz de Lula sustentando um mito e fugindo à responsabilidade de uma atuação crítica à altura das necessidades brasileiras e de momento tão decisivo.

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