Uma idéia para Curitiba
Aloísio Schmid e Emmanuel Appel
A transformação dos centros urbanos, decorrente do crescimento das cidades em direção à periferia ou aos subúrbios, ocorreu de maneira intensa nos Estados Unidos da Segunda Guerra Mundial em diante. Desde que houvesse vias expressas e automóveis particulares em abundância, nos subúrbios haveria espaço livre e barato não somente para moradias mas também para duas novidades: os centros comerciais (em português daqui se diz ‘‘shopping centers’’) e os grandes campi universitários.
Não é preciso muita observação para se perceber um desenvolvimento semelhante em Curitiba, assim como em outras cidades brasileiras. Entretanto, este reordenamento do espaço urbano permite uma constatação no mínimo preocupante: perde-se a simbiose entre o centro e as pessoas (e sempre é bom lembrar que o centro da cidade é para as pessoas), entre o centro e seus intelectuais. Estes começam a viver dentro dos campi e se afastam da cidade. Tornam-se funcionários (ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, deixam de funcionar enquanto intelectuais, aqueles necessariamente comprometidos com um público esclarecido, portadores de cultura pública), submetem-se ao zoneamento que separa o tempo de viver das forças produtivas e passam uma borracha na memória urbana (passam, de fato, uma borracha urbe et orbi). E não menos grave: já não mais se encontram nos cafés, nas livrarias, nos restaurantes, nos teatros.
O momento presente, ainda que de curta duração, abre-nos a oportunidade de discutir os rumos de Curitiba. A prefeitura está apresentando sua Proposta de Zoneamento e Uso de Solo, que deverá ser em breve posta em votação na Câmara de Vereadores. Embora muito longe de um plano diretor, pretende-se a revisão do espaço da cidade, tendo em vista seu suposto melhor desempenho. É onde podemos dar nossa contribuição (vide ‘‘Contribuição da Diretoria da Associação dos Professores (Apufpr) para a Proposta de Zoneamento e Uso do Solo’’, recentemente protocolada junto ao IPPUC), introduzindo o Campus Central da UFPR como um setor especial, com o objetivo de manter a vida intelectual em permanente diálogo com a sociedade paranaense, em particular com os cidadãos.
Na execução de uma topografia cultural, são precisamente as referências históricas de uma cidade que devem ser levadas em conta. A substância histórica preservada torna-se vital se soubermos não somente conservar os velhos edifícios mas também inseri-los, com suas passagens inconfundíveis, nos trabalhos urbanos. Naquelas quadras, nas imediações do corredor Reitoria-Teatro Guaíra-Universidade do Paraná (prédio histórico, hoje símbolo da cidade), vamos lutar por uma ocupação planejada, preservando e maximizando o que já existe, dando prioridade à produção e ao consumo de bens e serviços culturais. Paralelamente, produzir-se-á a recuperação da vizinhança, da vida nas ruas e nas noites, da conversa espontânea e crítica, em atmosfera de boemia. Russell Jacoby, em seu livro ‘‘Os últimos intelectuais: a cultura americana na era da academia’’, lembra como o declínio da boemia pode ter contribuído para o declínio da inteligência urbana, acrescentando de forma provocadora: ‘‘A sociedade dos cafés deu origem ao aforismo e ao ensaio; o campus universitário produz a monografia, a conferência e o pedido de subvenção’’ (Edusp, 1990, página 43).
Nesta região, historicamente marcada pela presença da Universidade, conhecidas instituições reivindicam este setor especial, inclusive previsto pelo artigo 150 da Lei Orgânica Municipal: Teatro Guaíra, Interamericano (Centro Cultural Brasil-Estados Unidos), Casa do Estudante Luterano, Passeio Público (bons projetos poderiam disputar o seu melhor aproveitamento cultural), Casa do Estudante Universitário, Colégio Estadual do Paraná (com seu grande auditório ainda mais valorizado), Círculo de Estudos Bandeirantes (com todos os bons mistérios que encerra), Casa da Estudante Universitária, Cultura Inglesa, Instituto Goethe, Aliança Francesa, Museu do Expedicionário (assim como o Museu Paranaense, na ponta mais central), dentre outros.
Sem grandes investimentos, podemos imaginar o pátio da Reitoria disposto como uma arena cultural e as escadarias do prédio histórico não apenas como cenário para autos natalinos. O antigo prédio central dos Correios e Telégrafos poderia, com mais frequência, abrigar exposições e cursos abertos. O Largo Bittencourt, na frente do Círculo Militar, voltar a ser um movimentado ponto de encontro dos estudantes. O antigo casarão da Cultura Inglesa, na Rua General Carneiro, tornar-se uma república para atender estudantes estrangeiros, e assim por diante.
O trânsito, no mínimo mais lento. As calçadas, sempre conservadas. As faixas de pedestres, melhor sinalizadas. As bicicletas, habitualmente integradas (para além dos programas físicos de fim de semana). Nota-se na região a falta de mais bares, mais restaurantes bons e baratos, mais cafés (curitibanos-parisienses/portenhos/vienenses), mais cinemas de arte, mais galerias. Faltam escolas públicas de música e dança. Faltam sebos e feiras de livros usados. E tudo o mais que for democraticamente planejado por um conselho gestor, com atribuições bem definidas, constituído por representantes dos moradores da região, da sociedade civil organizada (inclusive produtores culturais), do poder público municipal (com seus apropriados mecanismos de incentivo) e da Universidade Federal do Paraná.
Desta forma, a diretoria da Associação dos Professores acredita que se revitaliza o centro e que nossa universidade se insere definitiva e criticamente na paisagem cultural de Curitiba, aproximando a população de seus professores, alunos e funcionários, de seu contingente de intelectuais públicos. Seja numa sala de aula, numa biblioteca, num auditório de conferências, numa praça ou mesa de café. E para estimular a implementação, propõe um concurso de idéias, aberto a todos, sobre o Campus Central.
- ALOÍSIO SCHMID (Departamento de Arquitetura) - EMMANUEL APPEL (Departamento de Filosofia) são professores da Universidade Federal do Paraná em Curitiba

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