Uma idéia contra a fome
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de novembro de 2002
Valter Orsi 
''Quem tem fome, tem pressa'', dizia Betinho. Seguindo a mesma linha de raciocínio, o presidente eleito Lula anunciou que a prioridade número um do seu governo será o combate à fome.
O fim da fome, no entanto, não depende apenas das iniciativas do governo federal. O trabalho pode e deve começar aqui mesmo, em nossa cidade. Por isso, defendo a criação de uma Central de Distribuição de Alimentos em Londrina. Há mais de um ano, venho apresentando essa idéia a vários setores da sociedade. Se a idéia virar realidade, combateremos a fome eliminando uma das suas principais causas: o desperdício de alimentos.
O tempo é inimigo quando um produtor rural ou comerciante decide doar alimentos a alguma instituição social (creche, albergue, asilo, etc.). Muitas vezes, o alimento a ser doado apodrece antes de chegar à mesa de quem precisa - e, na maioria das vezes, por problemas de transporte ou comunicação! Se alguém resolve doar 30 quilos de tomate para a entidade A, onde há demanda de 10 quilos de tomate por dia, as dificuldades de transporte e comunicação - e a ação implacável do tempo - fazem com que os outros 20 quilos se percam, quando poderiam ter sido aproveitados pela entidade B ou C.
A falta de condições ideais para armazenamento e distribuição de alimentos é uma das grandes causas do desperdício. E os dados são alarmantes. Em artigo publicado pela Folha em 20 de outubro, a professora de nutrição Jocelem Mastrodi Salgado, da USP, diz que o Brasil manda anualmente R$ 12 bilhões em comida para a lata de lixo. Isso daria para alimentar 30 milhões de famílias durante um ano inteiro. No mesmo artigo, a professora afirma que 25% das frutas, verduras e legumes produzidos no País se perdem pelas más condições de transporte, armazenamento e aproveitamento de sobras. É inaceitável... Principalmente num país em que 10% da população é desnutrida (dados da ONU-FAO).
Se ''quem tem fome, tem pressa'', já está na hora de criarmos, aqui em Londrina, uma Central de Alimentos, numa parceria entre a Prefeitura, os empresários, os produtores rurais, a Ceasa e as mais de 120 entidades que realizam trabalhos sociais na cidade.
A Central seria um ponto de referência para todos aqueles que querem doar ou precisam receber alimentos em Londrina. O recebimento centralizado permitirá a qualquer cidadão encaminhar alimentos (perecíveis ou não) com a certeza de que a comida chegará, rapidamente, à mesa de quem precisa.
A administração da Central seria feita pelas próprias entidades sociais, em caráter de condomínio. Agora, você pode estar me perguntando: ''Como criar tudo isso?'' A resposta é simples. Quase nada precisa ser criado. É preciso apenas organizar o que já existe!
Hoje, há uma verdadeira ''via crucis'' de Kombis procurando doações de alimento na cidade. Se a Central for instalada, apenas uma pequena parte dessa estrutura já daria conta do trabalho.
Há muitos empresários decididos a colaborar em programas de erradicação da fome. Eles certamente cumpririam um importante papel social na construção e instalação da infra-estrutura da Central.
A Prefeitura destina uma verba para a contratação de funcionários para atuação em creches. Uma parcela desses profissionais - além de voluntários e estagiários das universidades locais - poderia atuar na Central, otimizando o aproveitamento de sobras, fazendo a separação de alimentos, preparando cestas básicas, organizando ''sopões'' para a comunidade carente.
Centenas de entidades desenvolvem um trabalho social abnegado e corajoso na cidade. Cada creche, cada albergue, cada asilo, cada pastoral, cada comunidade poderia tomar a Central de Alimentos como ponto de partida para que a comida chegue rápido à mesa de quem tem fome.
O sonho de Betinho pode virar realidade aqui e agora. Com a Central de Alimentos, a fome será vencida pela organização.
VALTER ORSI é empresário em Londrina


