Uma humanidade mais solidária é possível
Um só mundo, no sentido de que deve ser bom de se viver para todos, e o homem como soberana figura central. Este foi um ponto salientado nas palavras do presidente do Comitê Olímpico Internacional, ao abrir oficialmente a Olimpíada de Pequim. As palavras são manifestações de propósitos que repousam, latentes, no íntimo da grande maioria dos cidadãos do mundo, embora os muitos pontos de conflito e as disputas comerciais e de domínios territoriais. Se uma humanidade mais solidária é anseio de todos os povos, então isto deve ser possível.
A reunião na capital chinesa de gente de todas as raças, credos, ideologias e condições econômicas, num clima de paz e de alegria estampada em todos os rostos, foi uma clara evidência de que a relação entre os homens pode ser melhor. No magnífico espetáculo de abertura dos Jogos alinharam-se em ambiente festivo delegações representativas de nações que já se enfrentaram em guerras. Ali estavam americanos, coreanos e vietnamitas; patrícios de combatentes aliados de outrora e das três poderosas forças contrárias do Eixo, formadas por alemães, japoneses e italianos; ianques e russos, cujas doutrinas semearam a guerra-fria durante várias décadas e instigaram conflitos ideológicos e sangrentos em todo o mundo; ali estavam também judeus e palestinos e representantes de quem, em passados recente e remoto, tiveram dissidências com os próprios chineses.
Na festa ontem em Pequim encontravam-se presentes dezenas de chefes de Estado, marcadamente o presidente George Bush, cuja passagem pela Casa Branca em nada contribuiu para a paz no mundo, mas ao contrário. Se não apenas o evento da Olimpíada, mas também interesses comerciais e estratégicos, levaram à China tantos governantes (o presidente Lula incluído), eles ali estavam como cidadãos do mundo misturados à multidão no Estádio Ninho do Pássaro. As disputas esportivas se travam, mas paira no ar, em solenidades como a de ontem, um autêntico espírito olímpico e todos se confraternizam, sem hostilidades. Se batalhas comerciais são aceitáveis, não é preciso que essa competição chegue a extremos e induza a concorrências demolidoras e às guerras.
Não pode passar sem registro a magnitude do que se viu no monumental show de abertura dos Jogos. Foi uma amostragem da razão porque os chineses saíram de um estado de pobreza, de décadas recentes, e emergiram para o patamar de grande desenvolvimento econômico e social e que parece estar apenas começando. Quem é capaz de montar uma praça olímpica de tamanha eficiência e articular um espetáculo como esse assistido ontem por todas as gentes, pode fazer muito mais e dar positivos ensinamentos ao mundo.





