Uma história de Natal
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terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Wellington Moreira 
Francisco era o tipo de sujeito que não se empolgava com a proximidade do Natal nem tampouco conseguia entender por que as pessoas ficam tão sensíveis durante esta época do ano. Contudo, não dá para dizer que repudiasse aquilo que cerca a celebração do nascimento do menino Jesus. Ele se mantinha indiferente.
Quando olhamos a sua vida dá para entender o porquê. Morando sozinho num grande apartamento, separado e sem filhos, com os pais já falecidos e os irmãos residindo em cidades distantes, vivia recluso a maior parte do tempo e seus poucos colegas eram pessoas oriundas do trabalho.
E este Natal tinha tudo para ser igual aos outros. Já em férias, a sua programação para o dia 24 era acordar tarde, pedir alguma coisa pelo disque entrega no horário do almoço, escolher cinco ou seis filmes na locadora para passar os dias seguintes ligado na TV e comprar alguns enlatados e guloseimas. Afinal, ele acreditava: ''Quanto menos eu sair de casa nestes dias, melhor. Esta coisa de ficar dando 'feliz Natal' a todos não é a minha praia!''.
Mas desta vez a história foi diferente. Retornando ao condomínio na tarde daquele mesmo dia, foi abordado por um morador que sempre o cumprimentava rapidamente no elevador. E após uma breve troca de gentilezas, ouviu a pergunta: ''O que você vai fazer na noite de hoje? Vai se reunir com a família?''. Sem saber direito o que responder, Francisco foi direto: ''Acho que vou ficar em casa mesmo e não combinei nada de especial''.
Como o morador conhecia seu peculiar isolamento, fez a proposta: ''Já que você não tem algo programado, por que não vem passar a noite de Natal conosco aqui em casa? Vai ser simples, mas creio que irá gostar''. Francisco até tentou esboçar uma negativa, mas surpreso com o convite acabou respondendo que sim.
Entretanto, foi só abrir a porta da sua residência e vários pensamentos começaram a atormentá-lo. ''O que vou fazer hoje à noite na casa deles? Nem conheço estas pessoas! Mal as cumprimento no elevador''. E sem saber direto o que fazer decidiu: ''Eu passo por lá e fico alguns minutinhos. Faço o meu social, não me indisponho com ninguém e depois volto pra casa''.
Às 21 horas, conforme o combinado, João apareceu no apartamento 403. Tocando a campainha, foi recebido por um garotinho de 10 anos todo sorridente. ''Oi tio, tudo bem? Que bom que você veio!''. Logo depois cumprimentou uma a uma todas as dez pessoas presentes e, passados 30 minutos, já se sentia confortável a ponto de falar um pouco sobre sua vida, o que era incomum àquele homem.
Participou de um animado amigo-secreto de última hora, mostrou às três crianças o único truque de mágica que conhecia e também ajudou a pôr o jantar à mesa. Depois acompanhou silenciosamente a oração conduzida pela família que o recebia e pela primeira vez em muitos anos conseguiu se emocionar ao ver o presépio que enfeitava a sala de estar.
Horas depois, ao se despedir de todos, ele mesmo já se via como alguém mais humano e acolhedor. Capaz de surpreender o porteiro ao saudá-lo às 2h30 da manhã com um alegre ''feliz Natal, seu Jonas!'' e de ligar para os familiares no dia seguinte pela manhã para saber como estavam.
O que será que aconteceu com o Francisco na noite de Natal? Ele redescobriu o valor da convivência e a alegria de compartilhar. E aprendeu como um ser humano pode mudar a vida de seu semelhante ao interessar-se de modo genuíno e sem esperar nada em troca.
Obteve a graça de saber a tempo que entrega à vida muito menos do que ela lhe dá, mas isto vai mudar logo. Como disse há pouco: ''Finalmente acordei''.
WELLINGTON MOREIRA é palestrante e consultor empresarial em Londrina


