Uma história da ''não'' leitura
Alberto Manguel, responsável por ler para o escritor argentino Jorge Luís Borges, comenta, numa das passagens de Uma História da Leitura, que o livro, mais do que descortinar um mundo, é objeto de desejo. Ele salta à vista como um mundo encantando e convidativo, despertando a curiosidade do frequentador mais assíduo de bibliotecas, livrarias e sebos. Não são apenas as cores e a textura da capa; o título, o sumário, a contracapa, tudo se encadeia numa explosão de desejo e prazer, que nos incita a abri-los, folheá-los, rabiscá-los com marca-textos multicores, fazer orelhas...
Os livros são enigmáticos e desejáveis. Disso resulta uma enorme diferença entre o livro particular e o da biblioteca. Roland Barthes, em seu Rumor da Língua, observa que o espaço caseiro (e não público) retira do livro qualquer função de parecer social, cultural institucional, algo que as bibliotecas insistem em ter.
Na ótica de Barthes, um livro numa biblioteca pública, não aspira a ser obra de arte (enquanto objeto de desejo e, portanto, totalmente libertário), mas sim, caracteriza-se como instituição cultural, quer dizer, o que temos de ler para nos tornarmos cidadãos. A biblioteca pública, nesse sentido, parece assumir o papel de uma mãe castradora, que ama e enche o filho de afeto e mimos, mas é autoritária e punitiva quando o lema é educação acima de tudo; entenda-se educar por transformar alguém com base em valores ditos verdadeiros e corretos.
Em contraposição, o livro em casa, embora não totalmente livre de quaisquer imposições (pois também é um objeto comercial, que deve ser comprado à custa de trabalho) pode ter fins de entretenimento, de simples consulta, do prazer insuperável da leitura ou da releitura. Enfim, a posse do livro corresponde à leitura sem compromissos, ocupando o tempo ocioso, na qual o saber flui sem pressões do trabalho ou de prazos institucionais.
Esta incursão é feita a propósito de mudanças no regimento interno da biblioteca da UEL, que entraram em vigor no último dia 2. Trata-se de uma mudança em que a comunidade acadêmica (professores, alunos e funcionários, enquanto usuários, é claro) não foi consultada a respeito.
Entendendo a biblioteca como um espaço onde o espírito democrático nunca deve se ausentar, só tenho a lamentar tal atitude. No meu caso, que sou professor e pesquisador, consulto dezenas de livros por ano. Não ponho em discussão se é um exagero num país onde o leitor consome 2,5 livros/ano em média.
No novo regimento, a cota de um professor universitário, que era de 8 livros retirados por vez, caiu para 5. O que isso significa? No meu caso e de muitos outros docentes, que têm 4 ementas para ministrar, fica um pouco mais de um livro por matéria. Isto pode parecer até exagero em relação aos índices de leitura surgidos entre os docentes do ensino médio. Mas para o nível superior e a pós-graduação, esta quantidade soaria insuficiente. O professor universitário precisa demonstrar, minimamente, dois parâmetros de leitura: a dos clássicos e a dos coetâneos. Um para iniciar a discussão, o outro para acrescentar ou redimensionar o enfoque teórico. Se 8 já era pouco, a nova cota estrangula ainda mais.
Não à parte, o prazo, que antes era de 30 dias, agora caiu para apenas 15. Toda vez que tenho a oportunidade de conversar com ex-alunos, que hoje são funcionários, e com os próprios funcionários com respeitável tempo de casa, a reclamação é de que sobra serviço e falta mão-de-obra.
Livros novos, por falta de alguém que os catalogue, ficam meses nos porões da Biblioteca Central da UEL. Com a pressão da visita dos órgãos financiadores de pesquisa (Capes/CNPq) é que às vezes eles são levados às prateleiras. Realmente, entendo a posição do funcionário, o público é exigente e inesgotável. Mas pela lógica do novo regimento, o serviço provavelmente será duplicado, pois a diminuição de prazo acarretará, por conseguinte, na presença de mais pessoas querendo fazer renovação. O estresse desse funcionário, já prevendo o caos, aumentará quando vierem as reclamações por suspensão e (pasmem!) multas de R$ 1 por dia de atraso, por volume!
Quanto à suspensão não sou contra, ela evita que o funcionário ou docente faça do livro público o livro-em-casa, mas multa?! A meu ver, ela tende a afastar ainda mais o aluno da biblioteca, que a frequenta muito pouco graças à política que vem sendo adota há anos da xeroteca, isto é, a fotocópia de capítulos de livros.
A nova situação será a seguinte: em vez de pagar R$ 1 pelo esquecimento fortuito, pagam-se alguns centavos pela fotocópia na própria universidade. Com isso, o aluno vira o profissional com pouquíssimos livros em casa, mas com muitas caixas de textos, que acabam sendo expurgadas ao final de cada curso.
A multa deveria ser aplicada a quem confunde o público com o privado, ou seja, quem rasga, suja, rabisca, faz orelhas nos livros... E o valor não deveria ser R$ 1, mas a aquisição de um outro exemplar e, se a edição estiver esgotada, seja feita a recuperação, paga pelo causador do dano. Multa em dinheiro, lembra-me do caso da Petrobras, que gastou milhões em multas por sujar rios, eliminar boa parte da fauna e da flora como punição; mas vira e mexe vive estragando um pouco o patrimônio natural da humanidade.
A Biblioteca Central da UEL está fazendo uma opção bem clara pela institucionalização, e não pelo acesso à leitura cada vez mais democratizado. Isto não significa que o regimento antigo não deveria ser alterado, mas, no mínimo, a mudança deveria ser discutida com toda a comunidade acadêmica, incluindo aí os alunos, que também arcarão com o prejuízo. Portanto, se os responsáveis pela mudança do regimento não fizerem uma avaliação das consequências destas mudanças, eles estarão contribuindo, lamentavelmente, para escrever uma história da não leitura na UEL.
- FREDERICO AUGUSTO G. FERNANDES é docente do Centro de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina





