Uma hipótese - Ciro Gomes
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de maio de 1999
Ciro Gomes 
Confusões, chantagens, circo e pizzaiolos à parte, esta CPI dos Bancos, criada para potencializar pressões peemedebistas sobre um presidente fraco, dá-me uma ponta de esperança de que possa vir a se transformar numa coisa respeitável. Verdade que devo isso muito mais aos jovens procuradores da República no Rio de Janeiro e a uma muito bem-vinda exceção da grande imprensa de seu sono governista de quatro longos anos, mas... Ter esperança é preciso...
Então me animo a sugerir modestamente a Suas Excelências uma linha de investigação que tento compatibilizar a todos os fragmentos de informação já disponíveis com hipóteses que supririam provisoriamente as lacunas. Hipóteses são imaginárias, como se sabe, e, portanto, só servem de roteiro para investigação. O que quer dizer também, como aliás em todo procedimento investigatório em estado de direito democrático, que as pessoas todas são presumidas inocentes até que provas cabais testem as hipóteses e afirmem responsabilidades.
Para bem investigar não pode haver presunções nem excludências mentais; se todos são inocentes até prova em contrário, ninguém pode ser imune a ter sua responsabilidade apurada, seja quem for. Isto é dramaticamente verdadeiro quando se trata de responsabilidade pela administração pública. E tem contornos potencialmente explosivos num país em que o governo é controlado por professores-banqueiros.
Dito isto, vamos lá, uma hipótese a ser esclarecida: fins de 1997, correr de 1998, crise da Coréia/campanha eleitoral, recrudesce no Brasil a denúncia do populismo cambial em que, para se reeleger, o presidente jurava que não tinha desvalorização, afirmava que a oposição neoboba, fracassomaníaca é que desvalorizaria a moeda e mergulharia o País no caos. Ato contínuo, em ambiguidade crônica de quem aquilo que diz de manhã não serve para de tarde, o Sr. Presidente começa a receber em casa, na calada da noite, gente do mercado, professores-banqueiros para discutir desenvolvimento.
Os desenvolvimentistas, das madrugadas palacianas insistiam ante um presidente sempre apavorado diante de uma decisão: sem desvalorizar o câmbio não há saída! O problema é que a equipe econômica (leia-se Malan/Gustavo Franco), de dia e na hora do expediente, dizia que desvalorizar o câmbio sem providências fiscais e estruturais poderia ser (seria, diziam) o fim do Plano Real, a volta da inflação... o fim do mundo!
Chico Lopes - quem diria, hem? - era desenvolvimentista, tinha criado um bocado de casos nos encaminhamentos com o FMI, queria o câmbio desvalorizado, mas acudia à dificuldade crônica de decidir do conciliador presidente, com uma fórmula entre o não desvalorizar aceleradamente da dupla Malan/Gustavo e o desvaloriza-já da tchurma das madrugadas desenvolvimentistas: alargar a banda de frustração permitiria acelerar a desvalorização, mas dando tempo para o mercado ir se adaptando. Um meio-lá-meio-cá, assim bem ao gosto dessa incompetência pedante que nos dirige. E Chico Lopes nunca foi chamado para reunião noturna nenhuma... Muito ingênuo...
Todo mundo já sabe que Gustavo Franco é íntegro (pra quem gosta) ou teimoso e arrogante demais (pra quem não gosta) para aceitar ver sua verdade negada - e logo por quem? Pelo candidato eleito e reeleito por sua mágica! Pede para administrar a transição, mas já não esconde que os desenvolvimentistas das madrugadas palacianas, regadas a uísque e vinho de primeira, estão vencendo a batalha porque o presidente é um covarde que está cedendo interesse nacional à pressão dos plutocratas paulistas. É demitido.
Daí em diante, uma farsa é administrada pelo próprio presidente: nomeia Chico Lopes porque quem não tem cão, caça com gato.
Enquanto Chico Lopes era usado como testa-de-ferro de uma política cambial de tentativa (banda com diagonal endógena - quê-diabo-é-isso?) o próprio presidente pilotava um banco central doméstico com amigos e em casa (lembram de uma estranha viagem ao sítio no meio do rolo daquela sexta-feira?), decidindo uma nova política cambial de livre flutuação.
Assim, Chico teria informado errado aos clientes da consultoria de quem segue sendo sócio. Eles apostaram alto e, induzidos a erro, perderam. Segue-se o socorro com dinheiro público, etc.
Restaria, a sério, investigar os que acertaram e ganharam. E estes, se tiverem informação privilegiada, infelizmente só a podiam dar os que restaram nas reuniões da madrugada. Os filhos do Mendonça ganharam de novo e muito! Pode ser um bom começo de investigação...


