Talvez não exista melhor acepção que se possa inferir sobre o atual confronto entre Estados Unidos e Iraque do que aquela feita, na última segunda-feira, por Saddam Hussein que, em seu discurso, chamou o aludido conflito de uma ''guerra de mentiras''. É claro que, quando disse isso, Saddam se referia à prepotência dos norte-americanos aliás, muito bem representada na figura de seu conspícuo porta-voz, George W. Bush , quando estes, de antemão, se autodenominaram vencedores desta guerra, o que não deixa de ser uma mentira, já que, infelizmente, como se pode constatar, a guerra está apenas em seu início.
Contudo, aqui, me refiro a uma guerra mentirosa e ambivalente em quase todos os sentidos. Gostaria de destacar pelo menos três. Em primeiro lugar, é uma guerra mentirosa pelo seu obscurantismo, isto é, pela omissão dos verdadeiros interesses que impulsionaram sua eclosão, que, na verdade, não são tão obscuros assim, a não ser para uma grande parcela dos norte-americanos, cegos e alienados por uma crença pia no, tão preconizado, papel messiânico de sua nação.
Em segundo lugar, é uma guerra mentirosa por suas pérfidas alianças, cuja natureza, maquiavélica, é engendrada não por uma ''solidariedade comum'', ou pelo ''bem comum'' mundial, mas sim por interesses políticos e econômicos permanentes. A política norte-americana de ''boa vizinhança'', por exemplo, já não engana mais ninguém. Na prática, o que sempre esteve em jogo são os ''bons'' e velhos interesses capitalistas monopolísticos.
O que o governo norte-americano proclamara como intento, em 1823, com a ''Doutrina Monroe'', cujo jargão principal era ''a América para os americanos'', se tornou realidade nos séculos XIX, XX e, agora, com o início desta guerra, em pleno século XXI. As injunções da presente época, certamente, nos outorgam o direito de reformular um pouco este jargão, que poderia muito bem ficar assim: ''A América e o 'resto' do mundo para os norte-americanos''; e que me perdoem os poucos norte-americanos conscientes que ainda subsistem.
Por fim, em terceiro lugar, esta é uma guerra mentirosa por conta da confissão religiosa fundamentalista dos norte-americanos, pautada na convicção de que estes foram chamados por Deus, para uma missão especial e providencial, que lhes dá o direito ''divino'' de ocupação do Iraque. Isto, nada mais é que um realce da doutrina do ''destino manifesto'', popularizada nos EUA no século XIX, e que dizia que a expansão territorial norte-americana é ilimitada.
Aliar a guerra com a vontade de Deus, é um erro grave e uma grande mentira, bem como seria um erro, comparar o ''cristianismo joguete'', de Bush e de tantos outros, com o cristianismo fundado em Jesus Cristo. Como disse o norte-americano Michael Moore, na última edição do Oscar, ''esta é uma guerra com motivos fictícios, com um presidente (dos EUA, George Bush) também fictício''.
JONATHAN MENEZES é estudante de História na Universidade Estadual de Londrina

mockup