Luiz Geraldo MazzaUma greve pedagógica
A greve de ontem dos transportes coletivos urbanos de Curitiba é mais justa dos que as demais. Ela não visa um problema corporativo imediato, como aumento salarial ou planos de classificação, mas expressa uma angústia coletiva e que abrange indistintamente a todas as classes sociais: o desespero de todos e de cada um, diante da absoluta falta de segurança. É por isso mesmo uma ação cívica de traço coletivo, marcando posição diante de um governo embotado pelo drama das articulações políticas e mergulhado nessa prioridade, da sua reeleição, em que a compulsão pelo lado festivo das coisas lembra o distanciamento das elites de escola samba da monarquia francesa nas vésperas da Revolução.
O governo pede prazo de 15 dias para enfrentar a escalada da violência, quase no fim do seu mandato, enquanto a Região Metropolitana dá sinal verde para assaltos a bancos e a ônibus, num dos quais foi morto o cobrador da empresa Nossa Senhora do Carmo, fato que detonou a mobilização dos seus colegas que sofrem o risco diariamente (centenas de assaltos de bandidos pés-de-chinelo são feitos como rotina e que se aceita como banalidade). Um governo que assim age perde a moral para pleitear a sua permanência porque desertou há muito tempo das suas responsabilidades.
Não há comando - e nesse ponto é preciso concordar com o senador Requião, ainda que não se aceite o seu autoritarismo - e isso explica a falência geral das corporações empenhadas na prevenção e repressão, alvo ambas da cupidez de políticos que manipulam a área a seu bel prazer. Na bajulação imperante mais vale o cochicho do intrigante e áulico do que o alertamento do conselheiro e é o que está minando todo o sistema, tirando-lhe as reservas de eficiência ante o predomínio da encenação e do oba-oba.
Ponto número um para qualquer reversão: o governador recuperar prerrogativas indevida e imprudentemente delegadas à área política, que não assume esse ônus e fatura no entanto as benesses de nomeações, indicações e derrubada de dirigentes, como se deu com os coronéis Bortolini e Mainguê. Para isso não pode haver prazo nem de uma semana ou de 15 dias. É uma imposição de quem ainda detém um resíduo de credenciais para pleitear a reeleição e para isso é preciso reassumir responsabilidades que transferiu até para mostrar que está no governo e não o abandonou. E quem não está, como ensinaria a lógica, não pode ficar. A não ser em anedota de português.AXIOMA
Se o governador atender a pressão dos deputados (que já acolhe, de forma absurda, na Segurança, e estão aí os resultados) para mexer na diretoria do Banestado deve aproveitar a deixa e sair junto. Finge que vai ao sanitário e se arranca.
EPIGRAMANem a corte dos Bórgia conheceu situação igual à nossa: aqui, para cada Otello há mais de 200 na condição de Yago, aquele que na intriga levou o primeiro, afogado em ciúmes, a matar Desdêmona.
BIZARRICEDe tarde um cadáver ronda o Palácio Iguaçu, mostra da deserção do governo na área de segurança; à noite a festa do Rexona que não perfuma o suficiente para neutralizar o mau cheiro da Leasing Banestado.
SPRAYO PPS está pegando no pé de Requião: em duas entrevistas, uma no Juca Kfoury e outra no Amauri Júnior, o candidato presidencial Ciro Gomes o apontou como fascista por ser capaz de induzir alguém a dizer algo no telefone e gravar para comprometê-lo. - Como nas esquerdas o senador já sofre a restrição do PSB de Arraes (motivo nos precatórios), só o oportunismo sem saída do PT, mais os nanicos, o favorece. - Por falar em nanico, no sábado passado, durante a fala de Requião na entrevista bombástica na CBN, o secretário Gionédis entrou na fria de forçar um debate e recebeu o apelido de ‘‘anão’’. A cintilação semântica em torno da expressão pode estar ligada até aos anões do orçamento. - Quem passou por Curitiba foi o engenheiro e economista Eduardo José Daros, presidente da Sociedade Brasileira de Pedestres. Em São Paulo está produzindo um manual dos direitos do pedestre e lançando um telefone para que cada um dos pedestres possa se comunicar a respeito de assuntos da área, como falta de calçadas, calçamento esburacado com a prefeitura e governo estadual. - Criticou a mania, altamente demagógica, de fazer o antipó, que dá proselitismo, sem colocar as calçadas. - Fonte de terrorismo contra o Banestado ontem tinha uma origem nítida: a Assembléia Legislativa, onde se falava em prejuízos que teriam advindo da notícia da privatização. Prejuízos de R$ 500 milhões, o que, convenhamos, é bem maior do que os 11 paus que Neco Garcia aponta como o débito dos parlamentares inadimplentes. - Escândalo mesmo é a falta de um mínimo de confiabilidade, como se vê no caso dos cartões de crédito, agora bloqueados no Paraguai. Furo aí chega a milhões e tem gente forte do governo que teve o número dos seus cartões utilizado no exterior, tanto no Paraguai quanto na Argentina. - Agiu bem o secretário de Segurança em suspender a sua viagem a Brasília (reunião com seus colegas de outras unidades federativas e o ministro Renan Calheiros) para atender a emergência do assassinato de um cobrador que produziu trauma fortíssimo. Sua ausência, justificada, mostra em metalinguagem o grau de violência que tomou conta de Curitiba. - O tema vai ser mais forte e abrangente - já que atinge a todos - na campanha eleitoral do que o badalado pedágio em torno do qual alguns partidos estão pedagiando.
CARICATURA‘‘Planalto importa Viagra para a reereção’’. Macaco Simão ontem.
FOLCLOREDepois do drama vivido no Centro Cívico, face às manifestações de motoristas e cobradores de ônibus, um deputado de oposição apontava para o Palácio e dizia: ‘‘Agora o clima é funéreo, mas à noite vai ter o jantar-festa do Rexona. Pode ser o Baile da Ilha Fiscal do governo publicitário.’ O baile referido foi um desbum da elite comprometida com a monarquia brasileira e que acordou sob o regime republicano de ressaca e sonâmbula. Sonho oposicionista é sempre o pesadelo da situação.
CROMOSe o governo não acordar agora, depois de tudo que aconteceu ontem, nem um beijo de princesa desperta o príncipe adormecido.
AFORÍSTICOPelo jeito o Toni Ramos está com medo de ser garoto propaganda.

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